jueves, 27 de diciembre de 2018



Hoje é quinta-feira. A última de 2018. Dia de terapia, de balanço do ano. Esse ano que me balançou. Não com a fúria de um vendaval. Com o gostoso ir e vir de uma rede, empurrada por uma criança. Ou da preguiça boa das cadeiras de balanço de Cuba. Acho que ainda não contei que para mim, o símbolo de Cuba é uma cadeira de balanço. Toda casa tem uma. Eu não sei balançar direito nelas, os cubanos riam do meu desajeito. E iam me ensinando a soltar o corpo, a soltar a vida.

Hoje é quinta-feira, e eu não postei uma #TBT. Minha vida é quase toda uma TBT mesmo. Vivo de lembranças. Não sei viver sem me lembrar. Um  amigo querido, sempre tem que me aguentar falando "lembrei de..."  Esse mesmo amigo me enviou um texto da Lispector, e só por isso já foi bom respirar. E só por isso eu me obriguei a levantar do sofá, ligar o notebook na tomada porque já está sem bateria há uns três anos e vir escrever. Porque era um texto em que ela fala, dentre outras urgências do viver,  da urgência de se escrever para quem pretende se fazer escritor. Que escrever não pode ser um eterno postergar, que tem que ser agora. O que me pesa a consciência dos tantos textos que me rodeiam, sem que eu lhes dê atenção.

Nesse fim de semana passado mesmo, brotaram em mim uns três textos, semeados da fala mineira da Rita, uma dessas almas bondosas do interior de Minas, que guardam em sua fala a delícia de um linguajar que encantaria Guimarães Rosa. Não sei quando vou colhê-los. Há outros textos  mais velhos, que vivem pedindo pra saírem da minha memória, que pode vir a esquecê-los a qualquer hora. Querem ir para um pedaço de papel qualquer, onde possam existir além de mim. 

Acontece que a escrita de uma mulher é como sua ovulação: carregamos em nós todos os óvulos, mas só podemos soltá-los no seu próprio tempo. Esperem textos, que mais dias menos dias, Deus dando vida e saúde, como roga-lhe minha mãe, uma hora eu escrevo vocês. Não posso esquecê-los.  Ou até posso, mas não para sempre, só pelo tempo de me deixarem em paz. Encontro-os de novo, em uma dessas horinhas abençoadas em que a memória encontra a palavra.

Hoje é quinta-feira. É quase fim de ano, e fizemos um bolão para a mega sena no trabalho, mais pelo prazer de imaginar a vida de ricos, do que pela fé na sorte. Até porque temos um estatístico no grupo, que insiste em nos lembrar nossa pouca probabilidade de millhonarmos, mas também ele fez seus planos de novo rico. Para isso que jogamos! Pra jogar conversa fora sobre desejos praticamente irrealizáveis. Vai dizer que não isso não paga os quatro reais?

Hoje é quinta-feira, e estou sozinha em casa pela primeira vez, depois de andar tanto sozinha longe de casa. É um reencontro com um silencio familiar. Um silencio com gosto de casa, mas pra não perder a mania de nostalgia, estou tomando um rum que veio da viagem. Assim, quase me convenço que é possível viver o melhor dos dois mundos. Da Déborah que vai e da que volta.

Hoje já é quase outro ano. E eu ainda não sei o que vou sonhar pra ele. Vejo o ano novo chegando perto da porta, com uma mala vazia. Esvaziada de quereres importados. Desejosa de ser preenchida com autenticidade. O ano novo vem com ares de boemia, de quem vai se levar por onde o samba tocar. Eu já quase já o mando entrar pra dentro, mas ainda não. Tenho que acabar de finalizar este ano, já quase passado.

De repente, me dou conta de que estou escrevendo como se alguém pudesse querer ler, sem saber a quem pode interessar, essas letras que são tão minhas. Mas é que tenho aprendido, que a gente é tão parecido. Temos suspiros em comum. A grande magia da escrita acontece quando alguém lendo o que falo de mim, pense não em mim, mas em um si, que às vezes andava esquecido.

 Então, quem sabe, ao ler este texto um leitor querido, desses que como por encanto, gostam de me ler, possam pensar também em seu 2018. E em seu 2019. Ou se imaginar muito rico e amanhã cedo passe na loteria e depois na igreja, e com fé peça pra Deus abençoar sua fezinha. Ou pode ser que alguém, até se lembre também da sua citação preferida da Lispector, mesmo sem ter muita certeza se é  mesmo dela porque já não sabe se leu em um livro muitos anos atrás ou na sua timeline na semana passada. Pode ser também que alguém que nunca fez terapia, feche os olhos antes de dormir e sinta a cama como um divã e faça seu balanço do ano. E se dê conta que o saldo é positivo. Sempre é! A calculadora é que às vezes conta errado. E até revire seus anseios, procurando também um sonho para o ano novo, adormeça e sonhe com um ano já muito velho, que de tão velho, pareça uma mistura de fofura  e sabedoria.

Mas também pode ser, e até é mais provável, que este texto  fique esquecido, publicado num blog pouco acessado. E isso não vai ser um problema porque a palavra escrita existe mais para ser expilada de dentro da gente do que inserida dentro do outro. Como a arte de um pintor desconhecido de Cuba, que pinta verdadeiras maravilhas, que o mundo não vai ver, mas que me diz, que não pinta para vender, pinta por gosto, que se vender tanto melhor, mas senão, não faz diferença. Ele pinta por por gosto de viver. Eu escrevo por viver de gosto. 

E pra completar essa quinta-feira, a Miucha morreu. E eu não pude ficar triste porque só me lembrei de Vinícius e Tom do lado de lá, afinando o violão, e pensei que tendo amigos tão bons do outro lado, não deve ser ruim morrer. 

Por isso que meu 2018 vai morrendo em paz, por ter como companhia os 2017 a 1989. Foram todos bons companheiros, alguns mais alegres, outros carrancudos, um depois do outro, foram me trazendo até aqui. Eu só lhes prometo fazer de 2019 um bom amigo para ir feliz ao encontro deles, quando 2020 chegar. Oxalá chegue para todos nós!

PS.: Sobre o 2019 do Brasil, é papo para outra hora...


Caminhos in-certos



Certezas..para que hei de querê-las?
O incerto me excita
A dúvida me leva à espreita
Quero destruir ninhos
Espantar rebanhos
Depois, rezar ao pastor que me perdoe
Buscar as ovelhas 
E dizê-las
Que confesso:
Invejo-lhes a fé no que é certo
A mim, só resta-me
Divagar por impropérios 
A filosofia não pode me salvar 
Nela só posso me perder 
Entre pensações
Que não me levam a lugar algum 
Tudo bem, não ha mesmo para aonde ir
De algum lugar eu já vim
E pra lá, não posso mais voltar
Prefiro ir por ali 
Por onde não sei aonde mais vai dar
Mas que é o meu caminho 
O único, feito de mim 

martes, 18 de diciembre de 2018

Do que somos capazes

Aa penas aumentam
Sempre
Em relação inversamente proporcional
Aos pães 
Pra quem tem fome
Encarceram úteros
Enquanto destroem vidas já aos nascer
Era um velho clichê
De que aos pobres 
Só se aplicavam Código Penal e CLT
Acharam  que estava muito
Cortaram a CLT
Tão mais fácil governar 
Tendo o medo do prato vazio
 e as celas cheias
Como maiores aliados
Aprisionam utopias
Querendo nos fazer crer
Que não há o que fazer
Porque sabem
Mais do que nós 
Do que somos capazes

lunes, 17 de diciembre de 2018

O tempo perguntou pro tempo


"O tempo perguntou pro tempo
Quanto tempo 
O tempo tem
O tempo respondeu pro tempo..."
Que não tem tempo nenhum
Que quem pára pra pensar 
Enquanto tempo tem
Ou não tem tempo mais
Ou não tem mais o que fazer com o tempo
Que quem faz o tempo acontecer
Não conta horas nem anos
Não se pergunta se é agora ou depois
Apenas vive cada segundo 
Como se tivesse todo tempo do mundo 
E nenhum minuto a mais
Que o tempo se esvai como um sorriso 
Que por mais gostoso se desfaz
Quando a graça se esgota
E o tempo fica
Como um beijo que não se repete
Mas nunca acaba
O tempo do nunca mais
Aconteceu outro dia
E o tempo do Para sempre 
É só um instante do presente 

domingo, 16 de diciembre de 2018

Onde caibo

_ O mundo é grande.
_ eu sei, aprendi na aula de geografia.
_ há sempre muita gente.
_ unhumm..também sei alguma coisa de demografia.
_ os dias passam rápido.
_ e eu nao sei? Acaso eu mesma já não me assusto com a rapideza dos anos?
_ amores resistem..
_ sei bem, tenho lá um lado poeta..
_ então, pra que essa cara de ais? Parecendo fingir que acredita que se morre de saudades?
_ é que o mundo é que é grande, eu sou pequena..E só caibo no colo do meu bem

sábado, 15 de diciembre de 2018

Amor de pobre


Dancei com o mar

Dancei com o mar
Minha salsa sem ritmo
O mar achou graça
Chegou mais perto e bailou comigo
Cantei pro mar
Os refroes das musicas
Que adoro
Mas nao gravo a letra inteira
Ele parou a onda que vinha
Pra me escutar
Brinquei com o mar
De pega pega
Ele me pegou
Sorri pro mar
O riso que se tem para amigos
Contei pro mar
Segredos de alma
Acho até que prestou atenção
Rezei pro mar
Porque senti que Deus estava ali
Dormi na beira do mar
Ele tocou ondas pra me ninar
Acordei e o mar tava quieto
Zeloso feito um bom pai
Corri pro mar
Como quem corre
Pra um abraco de matar saudades
Depois de uma longa viagem
Parei na porta do mar
Pedi licença e benção à Iemanjá
Entrei no mar

E o mar nunca mais saiu de mim


(Varadero/Cuba, nov/18)

El Che

El Che
Não foi uma ilusão 
Nem virou so uma estampa
Na camiseta da Luana Piovani
El Che fez guerrilha e poesia
Medicou os feridos de guerra
E de miséria
Fez da pistola seu bisturi
Pra intervenção cirúrgica 
No corpo doente dos países oprimidos
El Che alimentou a sua raiva
Pra não se acostumar
Com o que estava errado
Mas lia Neruda para sua amada
Pra não se desacostumar 
De ver a beleza nos intervalos do furor
El Che nos ensina
Que todo homem bom
Ja é um pouco  revolucionário
Quando mataram El Che
Houve festa na Casa Branca
E choro em casebres cubanos
Mas quando mataram El Che
Seus olhos não se fecharam
De olhos abertos
Ele continua abrir caminhos
El Che não é um homem morto 
El Che é o espírito 
Que me inspira 
A me tornar latinoamericana

O mineiro e o mar

O mineiro e o mar

O mineiro e o mar 
Fizeram um trato
O mar mostra ao mineiro sua pequenez
O mineiro mostra ao mar sua indiferença
É por causa disso
Que só de vez em quando
eles se encontram
Se encantam
E se espantam!


(Florianópolis, março/2015)
_Eu adoro praia, mas tenho medo..só molho o pé..
_ Tem que se molhar toda, Déborah.
_ Você me ensina a entrar..no mar e no amor?
_ Vem, me dá a mão..

(Rio de Janeiro, julho/2018)

Nua

Estou nua
De mim
Da que eu fui
Da que serei
Da que te teve
Da que te deseja
Estou nua
Como uma índia
Na beira do rio
Sem arco nem flecha na mão
Estou nua 
Nada cobre minha pele
Estou exposta ao sol e ao vento
Não procuro sombra nem acalento 
Se chover
Eu me molho sem temer resfriado
Nem raio
Joguei fora as velhas vestimentas
Ainda não encontrei outras
Não se preocupe
Não quero que seja meu abrigo
Só desejo que um dia você 
Também  fique nu 
E despidos 
De passados e futuros
Nossos corpos se encontrem
Em algum presente 

Companheiro

Li não sei mais onde
Que a palavra companheiro
Significa "com quem se compartilha o pão"
Mas não aquele pão sem glutén
Sem recheio e sem miolo
Encomendado na padaria fitness
É o pão de todo dia
Da padaria aqui da rua
Com gosto de cotidiano
Pode ser até um pão murcho
Que sobrou de ontem
Desde que o café esteja fresquinho

Foi só outro dia que entendi
Enquanto comíamos um pão com mortadela
Não interessa a morfologia
Para mim
Companheiro mesmo
É quem compartilha da minha fome.



Eu te amo é pouco

Quer conversar?
Tem café!
Tô indo ai te ver!
O que aconteceu?
Eu te espero!
Só passei para dar um oi...
Pode falar, tô te ouvindo.
Ficou bacana!
Te encontro lá!
Me conta!
Tá triste hoje?
Pode pegar!
Deixa eu te ajudar!
Reparei que tá feliz!
Fiz pra gente!
Fica bonita com essa cor!
Que bom que veio!
Deixa isso pra lá!
Tô feliz por você!
Fica assim não..
Vai dar certo!
Tô aqui.


                Amor é um sentimento
                Grande demais
                Pra ser só dito
                Com eu te amo.

À esquerda

Levanto com o pé à esquerda
A esquerda é meu norte
Com sua História
Cheia de sonhos
Vacilos
Comunhão
Frustações
Perseguições
Amizades
Tão contraditória
Quanto qualquer alma humana
Ao longo do dia
Não me endireito
Só à esquerda
Posso ir além de mim
Para encontrar
Meus irmãos

Amizade

Só acredito na amizade
Dos que suportam minhas chatices
Apenas nesses vejo potencial
Para me aguentar
Até o fim
Quando eu for
Só rabujices

Quando nos dias
Que tô mais chata
Que síndico de condomínio
Eles me trazem seus risos

Eu resmungo
Que os amo

Primeira chuva

Quando chove forte
Numa segunda-feira
Parece que todos os pecados
Foram perdoados

Um homem corre apressado
Um menina sorri encantada
Um adolescente continua emburrado
Uma mulher teve a roupa molhada
Para alegria de olhos desvairados

E um bebê acorda sobressaltado
Seu pai traz-lhe ao colo
Acalma seu choro
Leva-o até a janela
Para que veja
Pela primeira vez
A natureza
Fazendo-se milagre


BH, 02/10/17

ensinamento

_ mainha, canta um samba pra gente?
_ ah, fia, ando tão sem cabeça, num to pra essas coisas..
_ mas, mãe, olha la o céu.. Hoje tem lua! E o pai até comprou umas cervejas.
_ é..ta bonita mesmo a lua..
_ então..
_ mas é que eu não tô alegre mesmo, to com muita preocupação.. e um aperto que não sei de onde vem.
_ Ah, finge que esquece e canta..Quem sabe até passa..vovó falou que cantar limpa o espírito..
_ ta bom, sua vó sabe mesmo das coisas.. chegue seu banco pra cá.. Vou cantar e você trate de aprender.. Que já é hora de você também saber espantar tristezas.

Intimidade

Gosto dessas conversas
Sem oi nem tchau
Que a gente só chega
Se fala e sai
Me dão a impressão
De serem intermináveis
Que o outro é um quarto de irmã
Que a gente invade
Sem pedir licença
Pega alguma coisa
No guarda-roupas
Sem permissão
E vai embora
Sabendo que pode voltar
A qualquer hora

Poeminha existencialista

Sobre o que Sartre me ensinou...


Faça alguma coisa
Faça qualquer coisa
Faça, faça, faça
Mesmo que não tenha tanta certeza
Do porquê
Resista à preguiça
Exista!
A essência se faz na persistência
De tanto fazer tantas coisas
Você acaba fazendo você!

(04/11/2017, BH. Após a leitura da obra "O existencialismo é um humanismo")

segurar a onda

De tanto segurar a onda
Aprendeu a surfar
Nos mares da vida
Não morre na praia
Quem se afoga no amor
Se isso não for amor..
...é o mais perto dele
Que eu já cheguei
É um direito sagrado
O de amando
Tentar se fazer amar
É um direito humano
Não amando
Negar-se a ser amado
É um direito diabólico 
Não amando
Deixar-se amar
É um direito animal
Amar
Sem se deixar
De Deus, diabo e animal 
É feito todo homem
Às vezes quero ser amiga com a sutileza de uma de borboleta. 
Que passa com seu voo, sem quase sem se fazer notar. Mas quando se nota, que encanto! E quando se olha novamente, já se foi. 
Outras vezes, quero viver com a presença de um cão amigo. Daqueles que os homens da roça têm em casa. Sem as frescuras dos cachorros da cidade. Quero apenas ser um companheiro pra ir campear o gado. Ganhar um afago e um osso, com um pedaço da carne, como agrado, e sairmos pra passear sem coleira.
 Mas também tenho meus dias de gato, em que quero ir encostando, com miado manso, até que possa subir no colo.
 Outra hora, quero ser cavalo, e carregar meus amigos e seus pesos, para aliviar-lhes a viagem. 
De vez em quando, eu quero ser  vaca, para poder alimenta-los de meu próprio leite pela manhã, e no resto do dia, ruminar em paz, debaixo da sombra da árvore que ninguém plantou. A natureza que fez. 
Tem também os dias em que estou galo do terreiro, e ainda madrugada, com todo meu canto, convido-os a despertarem e aproveitarem o dia! 
Mas nos domingos, eu só quero ser amiga gente, dessas com intimidade pra chegar pra almoçar sem avisar e comer frango caipira.

o amigo do fidel


Em Trinidad, Cuba, mostrei a uma menininha cubana uma foto da estátua do Che con niño,
que tinha visitado naquele dia em Santa Clara e perguntei se ela sabia quem era.
Ela me respondeu: “é o amigo do Fidel”.
Ah, Che, como você ficaria feliz em saber que assim te conhecem as crianças de hoje em Cuba.
Que importa se ela não se lembrou do seu nome, se ela sabe o mais importante:
que você é o amigo do Fidel.
O amigo que lutou por esse povo, que ajudou Fidel a fazer de Cuba um país novo e liberto.
Sua obra não está inacabada, como era seu único temor diante da morte.
Sua obra está em construção, contínua e permanente.
Cuba “vai bem”, mesmo depois que Fidel se foi.
Sua foto está estampada nas casas mais simples que visitei em Cuba.
Você é querido e inspira a seu povo a não sucumbir e a viver com orgulho de ser cubano,
com orgulho da Revolução.
E as novas gerações crescem sabendo que você é o amigo de Fidel
e darão continuidade ao seu sonho de Pátria Livre,
que ninguém, nem mesmo a morte, pôde interromper.

(Trinidad,Cuba. Out/18)

espera do amor


Uma senhora peruana estava na praça de Santa Teresa, interior do Peru, para acompanhar as deliberações do sindicato dos agricultores sobre acoes de protestos que estavam em curso.
Aproximo e pergunto se posso fazer uma foto.
Posso.
Pergunto quantos anos tem, responde que 70 e tantos, não lembro mais ao certo. Pergunto se com aquela idade ainda planta.
A resposta é impagável: “planto, bailo e chupo!!”, seguida de umas boas risadas!
Como não rir junto?
Envelhecer assim é coisa pra quem sabe ser feliz. Estou aprendendo! Vou embora, mas não sem antes fazer uma selfie e ganhar um abraco de vó.

Para um homem bom


Era sábado. Desses em que não chove nem faz calor. Ele acordou meio entendiado. Teve preguiça de fazer café. Saiu pela cidade de barriga vazia. Caminhou arrastado, como quem vai sem querer. Chutou a bola dos moleques vizinhos, que rolava morro abaixo, por conta de um vacilo do goleiro.
Cumprimento uma comadre que estava na janela, e prometeu que outra hora entrava pra fazer aquela visita pro cumpadre, que há meses estava acamado. Dobrou a esquina, chegou na praça da Matriz. Espantou três pombos (“bicho mais folgado!”). Reparou na turma que saía do catecismo, quase fez uma oração. Até tentou lembrar como é que rezava o credo, mas fazia tanto tempo desde a última missa, que deixou pra lá.
Viu que o filho mandou um whattsapp e pensou que mais tarde telefonaria, que não era dado a essas modernidades. Não entendia porque os jovens gostam tanto de escrever, quando falar é tão mais fácil.
Caminhou mais um pouco. Parou no banco da praça, debaixo da mangueira. Respondeu ao afilhado que ia apressado, pedindo a benção sem parar para receber. Planejou que na volta do almoço, passaria no açougue para encomendar a leitoa da ceia de Natal. Sorriu satisfeito porque os filhos viriam na semana que vem pra ficar até o ano novo. A casa ia estar cheia de netos, que já estavam crescendo, rápido demais.
            Eram 11h45 quando chegou no boteco. Era ali que almoçava todo santo dia, há mais de vinte anos, desde que a “sua dona”, passou dessa para a melhor.
            _ Diaaa!- falou como fazem os mineiros, que economizam até no cumprimento, quando conversam entre amigos.
            Não soube porque, mas sentiu uma ternura por aquele velho barbudo atrás do balcão, por aquelas cadeiras de madeira e pelos forro xadrez, que nunca foi trocado. Fez o seu pedido:
            _O de sempre!
            Uma cachacinha e três torresmos. Depois o prato do dia, acompanhado do pote de farinha e do vidro de pimenta.
            Bebeu a cachaça, elogiou o torresmo, comentou da falta de chuva e foi para a mesa.
            Mas antes que a garçonete trouxesse o frango com quiabo, sentiu uma fisgada no peito, forte e profunda. Sem ter tempo de pensar se valeu a pena tudo o que fez ou de lamentar o que não deu, tombou de lado, feito um passarinho.
            Morreu assim. Com a calma cotidiana de quem não complica o que foi feito para ser simples: a vida, a de quem vai e a de quem fica.
            Por isso não quis velório nem choratório, seu corpo seguiu tranquilo num cortejo sem alarde, enquanto sua alma entendia que o cemitério é só o último bar de um homem bom.



(Belo Horizonte, 2018. Inspirado na morte do pai de um amigo de um amigo)

No te preocupes

Somos solo
Un hombre y una mujer
Nada más que eso
Pero también
Nada menos

(Havana, dez/18)

Belo Horizonte

Há uma cidade que me acolhe
Outra hora, encolhe-me
Quando nao me engole
Essa cidade tem uma praça feita pra Liberdade
Até pros doidos, que defendem a volta dos militares
Tem outra praça pro Papa
Onde nunca fui pra rezar
Mais uma pra bandeira
Que quase ninguem mais carrega
Sem falar daquela outra, em que todo mundo ja pintou o Sete
Debaixo do Pirulito
So nessa cidade
Ha uma lagoa seca
Um Palacio das Artes
E uma Casa do Baile
Feita com mais curvas
Que as desculpas turvas
Dos homens na Guaicurus
Mas no Mercado Central a gente finge ser normal
E muitos juram ser ate gostoso
Comer sem dó
Figado com jiló
E corpos vendidos ao relento do vento
Na Pedro II
Ou no alto da Afonso Pena
Ninguem vai se preocupar em aquecer os esquecidos nas ruas escuras
Ja na Rodoviaria chegam gentes de todos os interiores
Despejam malas e malas
De queijos e anseios
Como da moca que passou no vestibular
Ou do senhor que so veio porque precisa operar
Logo ali
No parque municipal
Um artista mal quisto
Desenha por vinte reais
A operaria cansada
De olhar mais perdido
Que os juizos das meninas
Quando bebem catuaba
No ensaio de carnaval
É nessa cidade com uma esquina a cada bar
Poesia em latas de lixo e
tres vendedores de amendoim por quarteirao
Entre sacos cheios e porres vazios
Pela janela do onibus ou no copo de cerveja
Com bom dia mal respondido ou sorriso de desconhecido
Que todo mineiro peleja pra nao perder aquele trem
Chamado Belo Horizonte
14/12/2017

x

Matar


Sumir com corpos
Espalhar o medo
Entre os que ficam
Mandar o recado
"Agora estão avisados"
Matar
Sem pena de morte
Sem burocracia
Ninguém vai assinar a sentenca
Nem assumir a culpa
Não ha papéis
Os mandantes não emitem despachos
Nada de cheques
Pra ter o adversario morto
Pagamento so em dinheiro vivo
Matar
Na calada
Na esquina de qualquer rua
Que talvez um dia
Até ganhe o seu nome
Placas de um povo sem memória
Matar
Matar porque é fácil
Matar porque não vai dar em nada
Matar
Quando quer
A quem interessa
Por conveniência
E oportunidade
Matarp
Com covardia
E depois discursar
Com hipocrisia
Ainda é o jeito de ser fazer política
Nesse Brasil
Em que assassinos e vítimas
Não entram pra História
Matar
Uma pessoa
É matar um pedaço
De um povo
Já tão despeçado
E por falar em matar
Mataram mais um
Que não escapou
De última hora
!4/12/18

Cartas

Estava eu perambulando pelo bairro Funcionários, andando sem rumo, do jeito que faço na vida. Acho que tenho mesmo talento, feito de gosto, de andar por um lado e outro, sem ir a lugar algum. Acho que é coisa de gente crescida em Itamarandiba.
Eu que não era das mais espertas, tinha como prazer maior, passear pelas mesmas ruas de sempre. Parar um bocado, na igreja do Rosário. E depois ir indo pra casa, bem devagar, pensando no nada. O nada que é o irmao gêmeo do tudo.
Pois bem, voltando ao caso. Era um domingo de manhã. Talvez eu tenha ido à missa ou pensado em ir, e desistido no meio do caminho. Para mim, caminhar já é uma oração.
 Andando distraída, vi um caixa caída. Dessas cheias de velhos pertences. Do tipo que as noras colocam pra fora, quando a sogra vai dessa pra melhor. No meio de outras coisas com cara de pequenas relíquias de uma vida que já não é, vi cartas amareladas.
 Pra quem gosta de literatura, uma carta, assim perdida, é um dos melhores achados. Um conto em primeiro pessoa, de uma história vivida antes de ser narrada. A carta era do início dos anos 90 de uma filha que morava no exterior pra sua mãe. A filha admirava-se das notícias de divórcios na família e dizia coisas que em resumo eram o mesmo que amar não tá fácil. Haviam outras cartas. Li todas, escrafunchando as vidas alheias, sentada na calçada. 
Tive tanta vontade de trazer as cartas pra casa, de fazê-las um conto, uma crônica, um começo de romance. Mas senti que não podia, que era muita invasão. Igual o cara da rádio que musicou a carta de amor da Cassia Eller. Dobrei a carta. Coloquei de volta no lugar que lhe coube ser jogada depois de tantos anos de guarda zelosa. Também pode ser que alguém que escrevesse melhor do que eu ainda pudesse encontra-la e fazer dela uma bela história.
 Isso já faz alguns anos. Entre dois e quatro. Esqueci os detalhes da carta, mas de vez em quando minha memória me pedia esse texto. Talvez porque como saudosista que sou, sinto falta das cartas. Acho que fui a última geração que teve o prazer de esperar ansiosa o moço dos Correios, pegar o envelope e correr pro quarto, com o tesouro na mão. Talvez mesmo entre as minhas amigas da mesma idade, eu seja a única que tem guardada na gaveta do guarda roupa da mãe uma caixinha com cartas. E que ao menos uma vez no ano são relidas com risos e lágrimas. Tem também um caderno com colagens de correios elegantes, bilhetes, papel de bala, essas coisinhas todas. 
Sei que um dia também essa caixa será descartada. Oxalá, seu destino não seja de cara a fornalha. Que possa também ir pra algum lixo que o vento espalha e, alguém, por cuidado ou curiosidade, queira saber de mim, e nos tornemos queridos desconhecidos. 
É por isso que insisto na escrita à moda antiga: em bilhetes de expediente ou aniversario, em cartões postais que nem sempre chegam, em dedicatórias na contracapa. Quem me dera ter uma letra bonita, dessas que parecem bordados de caligrafia, pra poder enfeitar os meus sentimentos. Como não tenho, vão todos em forma de garranchos mesmo, mais condizentes com a sua natureza.
 Não me rendo a textos digitados. Tenho pra mim que ainda nao inventaram jeito melhor de escrever a alma do que uma boa caneta esferográfica, de tinta resistente ao tempo e ao esquecimento.

E da minha pequenez, vou também me deborando...

Eu estou interessada na poética da vida. Que é muito mais que a poesia dos livros. Embora, justica feita, seja essa, a que nos desperta,...