Hoje é quinta-feira. A última de 2018. Dia de terapia, de balanço do ano. Esse ano que me balançou. Não com a fúria de um vendaval. Com o gostoso ir e vir de uma rede, empurrada por uma criança. Ou da preguiça boa das cadeiras de balanço de Cuba. Acho que ainda não contei que para mim, o símbolo de Cuba é uma cadeira de balanço. Toda casa tem uma. Eu não sei balançar direito nelas, os cubanos riam do meu desajeito. E iam me ensinando a soltar o corpo, a soltar a vida.
Hoje é quinta-feira, e eu não postei uma #TBT. Minha vida é quase toda uma TBT mesmo. Vivo de lembranças. Não sei viver sem me lembrar. Um amigo querido, sempre tem que me aguentar falando "lembrei de..." Esse mesmo amigo me enviou um texto da Lispector, e só por isso já foi bom respirar. E só por isso eu me obriguei a levantar do sofá, ligar o notebook na tomada porque já está sem bateria há uns três anos e vir escrever. Porque era um texto em que ela fala, dentre outras urgências do viver, da urgência de se escrever para quem pretende se fazer escritor. Que escrever não pode ser um eterno postergar, que tem que ser agora. O que me pesa a consciência dos tantos textos que me rodeiam, sem que eu lhes dê atenção.
Nesse fim de semana passado mesmo, brotaram em mim uns três textos, semeados da fala mineira da Rita, uma dessas almas bondosas do interior de Minas, que guardam em sua fala a delícia de um linguajar que encantaria Guimarães Rosa. Não sei quando vou colhê-los. Há outros textos mais velhos, que vivem pedindo pra saírem da minha memória, que pode vir a esquecê-los a qualquer hora. Querem ir para um pedaço de papel qualquer, onde possam existir além de mim.
Acontece que a escrita de uma mulher é como sua ovulação: carregamos em nós todos os óvulos, mas só podemos soltá-los no seu próprio tempo. Esperem textos, que mais dias menos dias, Deus dando vida e saúde, como roga-lhe minha mãe, uma hora eu escrevo vocês. Não posso esquecê-los. Ou até posso, mas não para sempre, só pelo tempo de me deixarem em paz. Encontro-os de novo, em uma dessas horinhas abençoadas em que a memória encontra a palavra.
Hoje é quinta-feira. É quase fim de ano, e fizemos um bolão para a mega sena no trabalho, mais pelo prazer de imaginar a vida de ricos, do que pela fé na sorte. Até porque temos um estatístico no grupo, que insiste em nos lembrar nossa pouca probabilidade de millhonarmos, mas também ele fez seus planos de novo rico. Para isso que jogamos! Pra jogar conversa fora sobre desejos praticamente irrealizáveis. Vai dizer que não isso não paga os quatro reais?
Hoje é quinta-feira, e estou sozinha em casa pela primeira vez, depois de andar tanto sozinha longe de casa. É um reencontro com um silencio familiar. Um silencio com gosto de casa, mas pra não perder a mania de nostalgia, estou tomando um rum que veio da viagem. Assim, quase me convenço que é possível viver o melhor dos dois mundos. Da Déborah que vai e da que volta.
Hoje já é quase outro ano. E eu ainda não sei o que vou sonhar pra ele. Vejo o ano novo chegando perto da porta, com uma mala vazia. Esvaziada de quereres importados. Desejosa de ser preenchida com autenticidade. O ano novo vem com ares de boemia, de quem vai se levar por onde o samba tocar. Eu já quase já o mando entrar pra dentro, mas ainda não. Tenho que acabar de finalizar este ano, já quase passado.
De repente, me dou conta de que estou escrevendo como se alguém pudesse querer ler, sem saber a quem pode interessar, essas letras que são tão minhas. Mas é que tenho aprendido, que a gente é tão parecido. Temos suspiros em comum. A grande magia da escrita acontece quando alguém lendo o que falo de mim, pense não em mim, mas em um si, que às vezes andava esquecido.
Então, quem sabe, ao ler este texto um leitor querido, desses que como por encanto, gostam de me ler, possam pensar também em seu 2018. E em seu 2019. Ou se imaginar muito rico e amanhã cedo passe na loteria e depois na igreja, e com fé peça pra Deus abençoar sua fezinha. Ou pode ser que alguém, até se lembre também da sua citação preferida da Lispector, mesmo sem ter muita certeza se é mesmo dela porque já não sabe se leu em um livro muitos anos atrás ou na sua timeline na semana passada. Pode ser também que alguém que nunca fez terapia, feche os olhos antes de dormir e sinta a cama como um divã e faça seu balanço do ano. E se dê conta que o saldo é positivo. Sempre é! A calculadora é que às vezes conta errado. E até revire seus anseios, procurando também um sonho para o ano novo, adormeça e sonhe com um ano já muito velho, que de tão velho, pareça uma mistura de fofura e sabedoria.
Mas também pode ser, e até é mais provável, que este texto fique esquecido, publicado num blog pouco acessado. E isso não vai ser um problema porque a palavra escrita existe mais para ser expilada de dentro da gente do que inserida dentro do outro. Como a arte de um pintor desconhecido de Cuba, que pinta verdadeiras maravilhas, que o mundo não vai ver, mas que me diz, que não pinta para vender, pinta por gosto, que se vender tanto melhor, mas senão, não faz diferença. Ele pinta por por gosto de viver. Eu escrevo por viver de gosto.
E pra completar essa quinta-feira, a Miucha morreu. E eu não pude ficar triste porque só me lembrei de Vinícius e Tom do lado de lá, afinando o violão, e pensei que tendo amigos tão bons do outro lado, não deve ser ruim morrer.
Por isso que meu 2018 vai morrendo em paz, por ter como companhia os 2017 a 1989. Foram todos bons companheiros, alguns mais alegres, outros carrancudos, um depois do outro, foram me trazendo até aqui. Eu só lhes prometo fazer de 2019 um bom amigo para ir feliz ao encontro deles, quando 2020 chegar. Oxalá chegue para todos nós!
PS.: Sobre o 2019 do Brasil, é papo para outra hora...









