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domingo, 29 de septiembre de 2019

Criado por vó

A vó cuida do neto
O neto cuida da mãe
A mãe cuida da vó
A vó cuida da filha
A filha cuida do filho
O filho da filha cuida da vó
Todos se cuidam
Menos o pai
Que não entrou na história
Que saiu de casa
Que não quis ser família
Que deixou em branco
Um simples documento:
Certidão de Nascimento
Criando um vazio
De sentimento
Que a vó encheu de biscoito
Caseiro
E a mãe encheu de amor em pedaços
E bolo de brigadeiro no dia do aniversário
Por ser mulher guerreira
Menino criado por vó e mãe
Cresce sabendo que pra cada falta
Terá duas presenças
É que menino criado por vó
Seja em roça ou em apartamento
Nunca que se ajusta à falta de amor
Sempre se ajeita
Entre dois colos
Um pro cafuné
Outro pra cosquinha no pé
Menino criado por vó e mãe:
Três cuidando de três
É mesmo um desajuste!
#elenao #elenunca

BH, set/18. Poema em protesto contra Bolsonaro

domingo, 14 de abril de 2019

São em tempos de truculência
Que a poesia é mais necessária
É preciso amaciar
Pela noite
As durezas
Enfrentadas no dia
Há que sorrir
Apreciar a beleza da vida
Tomar banho de mar
E cerveja gelada
Cantar com os amigos
Dividir uma boa comida
Ouvir música alegre
Em tempos de truculência
Ser feliz
É um ato de resistência
(Cienfuegos, out/18)

martes, 19 de marzo de 2019

MST no #8M

Um movimento dentro do movimento



Na Revolução Cubana a participação das mulheres sempre foi uma condição primordial para a vitória dos rebeldes e para a consolidação do processo revolucionário. Ao mesmo tempo, transformar a condição de vida da mulher cubana foi não só um dos principais desafios, mas também das prioridades da Revolução.  Vilma Espin e Célia Sanches são as figuras mais conhecidas da relação mulher e revolução em Cuba. A Revolução soube perceber que uma verdadeira transformação da sociedade só pode ser efetivada  com ações voltadas às mulheres, mas sobretudo, por elas realizadas. Fidel em muitos discursos se referia à questão feminina como a Revolução dentro da Revolução. 


Faço essa nota introdutória sobre a Revolução dentro Revolução para iniciar o relato sobre a participação das Mulheres do Movimento dos Sem Terra no Ato do 8 de março de 2019 em Belo Horizonte  porque é exatamente a correlação que vejo entre o MST e o feminismo. Não  se faz reforma agrária sem a luta das mulheres e a causa feminista precisa englobar a luta pela terra. MST e feminismo são um movimento dentro do movimento, reciprocamente.

Por um lado, o feminismo desperta as mulheres para que descubram a sua coragem e capacidade de resistência, necessárias para a vivência do MST. Por outro, o envolvimento com a luta política pela terra fortalece a mulher para lutar contra todos os tipos de opressão e desenvolver suas múltiplas potencialidades.

Por isso foi emocionante acompanhar a participação das mulheres do acampamento D. Conceição no Ato  do último dia 8. Elas foram uma força à parte dentro desse um ato, que foi  histórico. Entre elas, podemos enxergar a sororidade que estamos tentando aprender. Porque para elas luta é mais que uma filosofia, é o seu dia a dia. Seu cotidiano. É o que fazem da vida. E sabem que só podem fazer a luta juntas! Uma delas me disse sobre a ida para o MST algo mais ou menos assim: "a gente vem porque precisa. Chega aqui e se apaixona. E nunca mais pára de lutar." Eu concluí: primeiro a necessidade, depois a ideologia.

Acho que é parecido como às mulheres chegam ao feminismo. Chegamos empurradas pela violência, preconceito e discriminação. Chegamos porque de uma forma ou outra descobrimos que feminismo é uma questão de sobrevivência. Que o machismo a todo tempo é um empecilho a ser superado para o exercício de nossos direitos mais básicos. 


Sobre o Ato, não tenho a menor noção de quantitativo de pessoas, só sei que nunca tinha visto tantas mulheres nas ruas de BH e com uma presença tão marcante (isso porque eu não estava em BH no dia do #elenão, que eu sei que foi lindo também). Havia ali uma força especial. Com Marielle presente. Com os peitos na rua.. Com música. Com irmandade. Um encontro de gerações. As mais jovens se destacavam pela ousadia das formas de protestos e as mais velhas estavam lá para nos ensinar a resiliência de quem renova a disposição de fazer tudo de novo.



Posso dizer que foi meu primeiro 8 de março verdadeiro, exatos 29 anos depois do meu primeiro 8 de março de vida. Naquele 8 de março de 1990, Fidel discursava às mulheres cubanas para dizer a elas: "Em tempos de guerra, resistir é a vitória. Em tempos de paz, resistir é a vitória." Nesses tempos atuais, em que não sabemos se são de guerra ou de paz, só disso sabemos: "Resistiremos!" 

Além do dia da mulher, também era dia de festejar os dois anos da ocupação D. Conceição. Um acampamento feminista de nascência. A ocupação iniciou-se no 8 de março de 2017,  para marcar seu caráter feminista, que vem se consolidando desde então. Da parede da secretaria decorada com uma pintura de Frida Kahlo  às lideranças das mulheres em todos os âmbitos. Assim fizeram de uma terra improdutiva, antes destinada à especulação imobiliária, um solo revolucionário. Um resgate à marra da função social de uma terra retomada de um dos símbolos da oligarquia corrupta brasileira: Eike Batista. Com brutalidade e brotalidade. Brotalidade das flores em cada jardim dos barracos e dos alimentos produzidos de forma agroecológica. Brutalidade da força de quem sabe que não pode se permitir retroceder.

Cabe-nos agora perceber que se o MST já descobriu o poder do feminismo, o feminismo urbano  no Brasil ainda precisa incluir de forma mais enfática em sua pauta  a luta pela reforma agrária.  A emancipação da mulher do campo é fundamental para uma verdadeira transformação da realidade da mulher no Brasil. Não só por serem milhões de brasileiras que dependem do acesso à terra para alcançarem a plenitude de sua dignidade. Também porque patriarcado e oligarquia é uma combinação histórica na formação da violência generalizada contra a mulher brasileira. A superação do machismo no Brasil não acontecerá enquanto as terras deste país estivem concentradas nas mãos de poucos homens: brancos, corruptos e violentos. 

A luta das mulheres do MST precisa ser a luta de todas as mulheres e homens feministas do Brasil. 









domingo, 17 de febrero de 2019

Vidas negras importam

Quando o racismo mata, o capitalismo é o assassino.

Na última sexta-feiram, vi o filme Se a Rua Beale Falasse. Um drama forte e sensível sobre o racismo norte-americano. Conta a saga de uma família negra para tentar provar a inocência de um jovem negro acusado de estupro. Não quero dar spoiler, mas acho que todo mundo consegue saber que o filme não tem um final feliz. Não poderia ter. Tem um final de uma felicidade negociada, entre quem pode negociar, o Ministério Público, e quem só tem a perder, o acusado. A justiça nos moldes mercadológicos..

No dia seguinte, ao abrir as redes sociais, defronto-me com o caso do assassinato do Pedro Gonzaga, um jovem negro morto por um segurança do supermercado Extra. O filme vem à lembrança na hora, pois tem uma cena em que o protagonista sofre violência policial em um supermercado. 

Em mais um drama da vida real, mais uma vida negra perdida para as mercadorias. Quantas vidas negras já foram perdidas por mercadorias? Quantas outra serão? Das mais variadas formas, negros continuam a morrer nas senzalas abertas do Brasil. Negros continuam a morrer nas celas cerradas de todo o mundo. 

O capitalismo é o assassino. O segurança que estrangulou é só a mão visível da "mão invisível". O racismo mata. O racismo é um produto direto do capitalismo. A escravidão em seus diversos níveis foi e continua sendo uma consequência direta do capitalismo e do imperialismo. Logo, quando o racismo mata, é o capitalismo que mata! É a sociedade que valoriza mais as coisas do que as pessoas, em especial, mais do que a pessoas negras, que mata! 

 É preciso ver além da mão que enforca, pedir mais do que cadeia. Se não mudar a porra toda, não vai mudar porra nenhuma. Um negro a mais no cemitério, um negro a mais na cadeia (o segurança que cometeu o ato também é negro, conforme se vê nas fotos de  reportagem do Jornal Extra. ). Embora não menospreze a necessidade de responsabilidade individual do segurança, meu ponto é que não devemos lutar por mais prisões e mais cadeias. Devemos lutar por mais liberdade!

Hoje aconteceram atos em várias cidades como protesto pela morte do Pedro. Em Belo Horizonte, o ato aconteceu no Supermercado Extra da Avenida Francisco Sales. Não havia muitas pessoas, mas as que se dispuseram sair à rua numa tarde de domingo chuvoso deram seu recado. Mais umas às outras do que a qualquer outra pessoa.  O mais importante ali foi a confirmação de laços de solidariedade e encorajamento aos que estão e sempre estiveram na luta. A mão do Pedro foi soltada! Se é que algum dia alguma mão, além da de sua mãe, que presenciou o filho ser morto, tenha segurado a mão do Pedro. Há tantas mãos soltas. Quem é que realmente não vai soltar? Quem sempre segurou a barra. 
Enquanto o ato acontecia, um senhor negro, morador de rua, estava ali com jeito de alienado. De quem não sabe o que está acontecendo. Provavelmente, o que mais sabe do que realmente se trata.

Eu, meio tola e perdida, pergunto timidamente para uma senhora negra, d. Zora Santos, se ela sempre participou dos movimento sociais. Responde com ar exausto: "a vida toda". Não é exatamente uma opção para pessoas como ela. É uma questão de sobrevivência. Pergunto se ela quer relatar alguma coisa em especial. D.Zora me olha com pupilas dilatadas, talvez num misto de indignação e cansaço, talvez porque em um segundo tenha se lembrado de tantos episódios, que preferia não lembrar porque preferia não ter vivido. E lembrar é viver de novo. Talvez porque olhe para mim com minha cara branca de quem não sabe nada daquilo e responde que ia me dizer o que já havia dito em sua fala para os companheiros: "Eu estou sem ar. Eu estou sufocando. Quero respirar."

Recolho-me ao meu lugar de branquitude, de quem mesmo que tente entender, não sabe nada sobre racismo. Porque literalmente nunca o viveu na pele. De quem não sabe nada sobre o que é precisar respirar. Porque respirar para um branco é um ato comum, que não se pensa sobre ele. Como não se pensa sobre suas pele. Como não se pensa sobre o risco que é ir a um supermercado. Respirar é um ato natural brutalmente retirado de tantos negros assassinados. De Marielles a Pedros, o Brasil segue matando seus pretos.

Nós brancos que não sabemos de nada, se quisermos aprender, vamos precisar prestar muita atenção. Em quem está matando. Em quem está morrendo. E em quem está fingindo que não é parte do problema.





PS.:

O fato de mais uma morte decorrente do racismo vir à tona nessa semana, também nos leva à discussão sobre o movimentação para criminalização da homofobia, que está na pauta da semana. O episódio escancara a incapacidade do direito penal de evitar que mortes decorrentes de preconceitos históricos continuem a acontecer. O direito penal nos vende a ilusão de salvar vidas, gostamos e aplaudimos porque além de nos parecer justo, nos parece fácil. Mas salvar vidas não é fácil num país de histórico assassino. Homofobia mata. Racismo mata. E o direito penal também mata.

lunes, 28 de enero de 2019

D. Maria da Penha do MST



Terra para quem precisa de terra. Terra para quem quer plantar. Terra para quem quer fazer um jardim em casa e criar frangos para o almoço de domingo. Terra para quem é da terra. Não para quem é dos bancos, não para quem a quer para  especular. Não para quem não sabe o que é plantar um grão de milho e esperar ansiosamente o milagre da multiplicação acontecer em seu quintal.

Ocupar a terra por e para quem é da terra. É isso que o MST está fazendo num terreno ocupado em Itatiaiuçu, um pequeno município da região metropolitana de Belo Horizonte.

A terra de propriedade do empresário Eike Batista, que dispensa apresentações, foi ocupada num dia 08 de março, para marcar a luta das mulheres pela terra. O acampamento leva o nome de uma mulher: D. Conceição, quem lutou na preparação para a ocupação, mas faleceu um mês antes de ela acontecer.

D. Conceição está cheia de mulheres fortes, cheias de garra e coragem. Mulheres que estão reinventando ali o jeito de exister neste planeta. Cada uma delas é uma benção e uma história à parte. Mas eu só poderia começar  contando da história de d. Maria da Penha. Com um nome desses... Como a sua xará mais famosa, D. Penha é uma mulher de resistência. Nela a esperança e a alegria teimam em resistir.

E ela tem aquele jeito de vó a que eu não resisto. 

Começa nos mostrando cada uma de suas plantas. Esbanjando a sabedoria de quem conhece os segredos das plantas, vai nos dizendo o uso medicinal de cada uma das coisinhas bonitas de seu jardim. Camomila para febre, outra para cicatriz, a outra para quem sofre de estômago, gastrite nervosa e essas coisas. Quase já peço um chá.

Depois nos mostra como os pintinhos cresceram, que está dando ração para o crescimento, mas pouca porque comprar ração fica muito caro. Depois nos convida para entrar para dentro. Ah, como eu gosto de entrar para dentro de uma casa onde habita o amor. Onde cada elemento é cheio de sentimento. Ali sentada no fogão de lenha preparo os ouvidos porque já sinto que lá vêm histórias.

E como vieram. Histórias de amor. De dificuldades das relações humanas. De encantamento com a terra. De tristezas que não passam com o tempo. De sonhos que não desistem. 

Nesses momentos eu entendo o sentido da expressão "sou toda ouvidos". Não sou mais nada do que isso. Quero absorver cada pedacinho de onda sonora que traz o retalho de uma vida toda. D. Penha não abre só a casa, abre a vida, o coração, o existir. 

Conta-nos que mora junto com seu companheiro há 37 anos. Já logo queremos fazer uma festa de casamento, mas ela diz que não, que se casar, "vai que estraga". Que acontece com muita gente de casar e não dá certo. Só quer uma festa de bodas: de diamantes! Alego que falta muito e deixamos combinada a festa dos quarenta anos.

Ela tem 64 anos e reclama do rosto enrugado. Feito de marcas. E eu imagino que cada linha de expressão é um caminho completo,  feito do que foi expresso e do que foi calado. D. Penha me diz que ainda tem sonhos, que não se sente velha para sonhar, que se Deus quiser, ainda vai realizá-los. Pergunto que sonhos são esses: ter um pedaço de terra, para plantar, criar um porquinho, viver tranquila. Um pedaço de terra que seja dela no papel. O papel que faz falta.  Que garanta que é dela e que possa ser mostrado para comprovar o dito. Ela que trabalhou a vida toda, em tantas coisas e ainda não conseguiu a segurança que traz o papel. Teme que o novo governo corte o Bolsa família, quer viver do que a terra dá.

Estou curiosa para saber a história de cada pessoa desse pedaço de terra, tão ressignificado. Ela me explica que foi para lá por indicação da filha, que disse que ela, que gostava tanto de plantar, devia ir. Que a terra era boa. Ela e o marido foram para conhecer. O marido só voltou à antiga casa para pegar as coisas e nunca mais saíram. Nascida e crescida na roça, redescobriu o prazer da terra. De ver a terra corresponder ao trabalho diário, o suor derramado. A filha não veio junto, pois tem um filho especial, que não anda nem fala, só vive quietinho e não  poderia morar ali. Vieram duas netas.

Num dado momento, conta-me da neta criada por ela, que há pouco tempo fugiu de casa aos 15 anos. Sem se despedir e agora está grávida. Argumento que um dia a neta volta, que é coisa de adolescente, sem juízo, provavelmente iludida com alguma paixão. Mas ela não quer saber dessa volta. O coração de vó amargurou-se. A neta deixou para trás o celular comprado com tanto esforço. A tela do celular estava quebrada de um tombo no asfalto, mas ela mandou consertar e pagou com custo a nova tela, que custou R$150,00, em duas parcelas. Telas trincadas são substituíveis, mas o que fazer com um coração de vó quebrado?

Ela busca a foto da neta num porta retrato. No outro porta retrato, uma foto antiga, do filho, que morreu matado. No carinho da vó e da mãe com as fotos, entendo o enorme poder da fotografia de congelar o amor para de vez em quando deixar ele acontecer  de novo dentro da gente. Mesmo quando dói.


Mas isso ainda não é tudo. Fico sabendo que d. Penha é uma celebridade. Que sou apenas mais uma a querer saber dela e contar sua história. Ela já foi filmada em um documentário. E me diz que nem acreditou quando viu que a filmaram indo em direção à casa, arrastando a perna. Mas sabe que sua vida daria também um livro. De tanta coisa que já passou sem se deixar passar. 

E o mais de tudo? Aquele momento de dar inveja? D. Penha já recebeu a Dilma! Serviu-lhe bolo e gostou muito dela, que é uma pessoa simples. Que ela bem que podia voltar. Se alguém ai encontrar com Dilma, repasse o convite, por favor.

D. Penha reclama com a anfitriã que está me acompanhando, que ela não avisou que eu iria. Que podia ter feito bolo para mim também. Fala para eu voltar. Eu saio tendo a certeza que voltarei sim. Com um abraço de despedida, diz que me amou. Eu a amei também. Qualquer dia desses, volto para ganhar meu pedaço de bolo. Dessa vez fiquei só no café doce, como de todas as vós.

Volto porque d. Penha me enche de emoção. De ver a terra entregue a quem dela precisa. A quem a merece. A quem a conquista! Terra para quem planta! 

Eu poderia chamar isso de função social da propriedade, em termos constitucionais. Mas propriedade tal como o casamento que d. Penha não quer, é só uma instituição civil. O que existe entre d. Penha e a terra é o mesmo que existe entre ela e seu companheiro: amor. E o amor sempre prescindiu das instituições. É além de qualquer função.

D. Penha ri, chora, abraça. Dona Penha é uma Maria do MST. Isso é tanto que não sou mais capaz de contar. 




Déborah Amaral. Belo Horizonte, 28/01/2019


martes, 18 de diciembre de 2018

Do que somos capazes

Aa penas aumentam
Sempre
Em relação inversamente proporcional
Aos pães 
Pra quem tem fome
Encarceram úteros
Enquanto destroem vidas já aos nascer
Era um velho clichê
De que aos pobres 
Só se aplicavam Código Penal e CLT
Acharam  que estava muito
Cortaram a CLT
Tão mais fácil governar 
Tendo o medo do prato vazio
 e as celas cheias
Como maiores aliados
Aprisionam utopias
Querendo nos fazer crer
Que não há o que fazer
Porque sabem
Mais do que nós 
Do que somos capazes

sábado, 15 de diciembre de 2018

El Che

El Che
Não foi uma ilusão 
Nem virou so uma estampa
Na camiseta da Luana Piovani
El Che fez guerrilha e poesia
Medicou os feridos de guerra
E de miséria
Fez da pistola seu bisturi
Pra intervenção cirúrgica 
No corpo doente dos países oprimidos
El Che alimentou a sua raiva
Pra não se acostumar
Com o que estava errado
Mas lia Neruda para sua amada
Pra não se desacostumar 
De ver a beleza nos intervalos do furor
El Che nos ensina
Que todo homem bom
Ja é um pouco  revolucionário
Quando mataram El Che
Houve festa na Casa Branca
E choro em casebres cubanos
Mas quando mataram El Che
Seus olhos não se fecharam
De olhos abertos
Ele continua abrir caminhos
El Che não é um homem morto 
El Che é o espírito 
Que me inspira 
A me tornar latinoamericana

Companheiro

Li não sei mais onde
Que a palavra companheiro
Significa "com quem se compartilha o pão"
Mas não aquele pão sem glutén
Sem recheio e sem miolo
Encomendado na padaria fitness
É o pão de todo dia
Da padaria aqui da rua
Com gosto de cotidiano
Pode ser até um pão murcho
Que sobrou de ontem
Desde que o café esteja fresquinho

Foi só outro dia que entendi
Enquanto comíamos um pão com mortadela
Não interessa a morfologia
Para mim
Companheiro mesmo
É quem compartilha da minha fome.



À esquerda

Levanto com o pé à esquerda
A esquerda é meu norte
Com sua História
Cheia de sonhos
Vacilos
Comunhão
Frustações
Perseguições
Amizades
Tão contraditória
Quanto qualquer alma humana
Ao longo do dia
Não me endireito
Só à esquerda
Posso ir além de mim
Para encontrar
Meus irmãos

o amigo do fidel


Em Trinidad, Cuba, mostrei a uma menininha cubana uma foto da estátua do Che con niño,
que tinha visitado naquele dia em Santa Clara e perguntei se ela sabia quem era.
Ela me respondeu: “é o amigo do Fidel”.
Ah, Che, como você ficaria feliz em saber que assim te conhecem as crianças de hoje em Cuba.
Que importa se ela não se lembrou do seu nome, se ela sabe o mais importante:
que você é o amigo do Fidel.
O amigo que lutou por esse povo, que ajudou Fidel a fazer de Cuba um país novo e liberto.
Sua obra não está inacabada, como era seu único temor diante da morte.
Sua obra está em construção, contínua e permanente.
Cuba “vai bem”, mesmo depois que Fidel se foi.
Sua foto está estampada nas casas mais simples que visitei em Cuba.
Você é querido e inspira a seu povo a não sucumbir e a viver com orgulho de ser cubano,
com orgulho da Revolução.
E as novas gerações crescem sabendo que você é o amigo de Fidel
e darão continuidade ao seu sonho de Pátria Livre,
que ninguém, nem mesmo a morte, pôde interromper.

(Trinidad,Cuba. Out/18)

Matar


Sumir com corpos
Espalhar o medo
Entre os que ficam
Mandar o recado
"Agora estão avisados"
Matar
Sem pena de morte
Sem burocracia
Ninguém vai assinar a sentenca
Nem assumir a culpa
Não ha papéis
Os mandantes não emitem despachos
Nada de cheques
Pra ter o adversario morto
Pagamento so em dinheiro vivo
Matar
Na calada
Na esquina de qualquer rua
Que talvez um dia
Até ganhe o seu nome
Placas de um povo sem memória
Matar
Matar porque é fácil
Matar porque não vai dar em nada
Matar
Quando quer
A quem interessa
Por conveniência
E oportunidade
Matarp
Com covardia
E depois discursar
Com hipocrisia
Ainda é o jeito de ser fazer política
Nesse Brasil
Em que assassinos e vítimas
Não entram pra História
Matar
Uma pessoa
É matar um pedaço
De um povo
Já tão despeçado
E por falar em matar
Mataram mais um
Que não escapou
De última hora
!4/12/18

Eu estou interessada na poética da vida. Que é muito mais que a poesia dos livros. Embora, justica feita, seja essa, a que nos desperta,...