Era sábado. Desses em que não chove nem faz calor. Ele acordou meio
entendiado. Teve preguiça de fazer café. Saiu pela cidade de barriga vazia.
Caminhou arrastado, como quem vai sem querer. Chutou a bola dos moleques
vizinhos, que rolava morro abaixo, por conta de um vacilo do goleiro.
Cumprimento uma comadre que estava na janela, e prometeu que outra hora
entrava pra fazer aquela visita pro cumpadre, que há meses estava acamado.
Dobrou a esquina, chegou na praça da Matriz. Espantou três pombos (“bicho mais
folgado!”). Reparou na turma que saía do catecismo, quase fez uma oração. Até
tentou lembrar como é que rezava o credo, mas fazia tanto tempo desde a última
missa, que deixou pra lá.
Viu que o filho mandou um whattsapp e pensou que mais tarde telefonaria,
que não era dado a essas modernidades. Não entendia porque os jovens gostam
tanto de escrever, quando falar é tão mais fácil.
Caminhou mais um pouco. Parou no banco da praça, debaixo da mangueira.
Respondeu ao afilhado que ia apressado, pedindo a benção sem parar para
receber. Planejou que na volta do almoço, passaria no açougue para encomendar a
leitoa da ceia de Natal. Sorriu satisfeito porque os filhos viriam na semana
que vem pra ficar até o ano novo. A casa ia estar cheia de netos, que já
estavam crescendo, rápido demais.
Eram 11h45 quando chegou no boteco.
Era ali que almoçava todo santo dia, há mais de vinte anos, desde que a “sua
dona”, passou dessa para a melhor.
_ Diaaa!- falou como fazem os
mineiros, que economizam até no cumprimento, quando conversam entre amigos.
Não soube porque, mas sentiu uma
ternura por aquele velho barbudo atrás do balcão, por aquelas cadeiras de
madeira e pelos forro xadrez, que nunca foi trocado. Fez o seu pedido:
_O de sempre!
Uma cachacinha e três torresmos. Depois
o prato do dia, acompanhado do pote de farinha e do vidro de pimenta.
Bebeu a cachaça, elogiou o torresmo,
comentou da falta de chuva e foi para a mesa.
Mas antes que a garçonete trouxesse
o frango com quiabo, sentiu uma fisgada no peito, forte e profunda. Sem ter
tempo de pensar se valeu a pena tudo o que fez ou de lamentar o que não deu,
tombou de lado, feito um passarinho.
Morreu assim. Com a calma cotidiana
de quem não complica o que foi feito para ser simples: a vida, a de quem vai e
a de quem fica.
Por isso não quis velório nem
choratório, seu corpo seguiu tranquilo num cortejo sem alarde, enquanto sua
alma entendia que o cemitério é só o último bar de um homem bom.
(Belo Horizonte, 2018. Inspirado na morte do pai de um amigo de um amigo)
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