Eu estou interessada na poética da vida. Que é muito mais que a poesia dos livros. Embora, justica feita, seja essa, a que nos desperta, para todas as outras. É tendo pequenos espantos e soltando grandes suspiros, diante de Clarices, Pessoas e Vinicius, que a gente vai aprendendo a se abrir para a beleza da vida. Dai que eu quero ver o mundo com filtros de Drummond para reparar no imenso esforço da mãe que tenta se acalmar ao lado do menino que esperneia deitado no meio do shopping. Meu Deus, pobre mãe! Eu nao sei, mas posso imaginar, a sua vontade de sair correndo, de gritar, de deixar as sacolas pra trás. De dizer para todos os traseuntes que a olham com cara de julgamentos, que eles nao sabem nada do que é criar um ser humano. Mas a mae nao faz nada. Ela apenas fica ali do lado do seu filho, como sempre ha de ficar, por todos os seus dias. Desejo estar atenta para o poema inteiro que ha na cena de um casal entrando de maos dadas no mar. E tambem quero saber do encantamento, nunca antes imaginado, da mulher que pela primeira vez se olha no espelho e se acha bonita. E encontrar a cumplicidade que so a dor tras, como a dos dois irmaos que se abracam ao pé do tumulo do pai. Quero Cora pra saber que ha muita poesia no doce que comprei na feira. E saborear o doce, com o paladar de Quintana. Pra logo mais passar na quitanda e admirar, como se fosse Lara, a conversa à toa das duas vizinhas, que trocam amenidades ao comprar pao e assim, com o perdao do batido trocadilho, vao alimentando o dia. Eu quero mais que a palavra escrita. E mais que a poesia lida. Quero o sentir do que cala. E do que fala, sem ser ouvido. Eu quero a poética da vida. Desta, e de todas as outras de minha alma.
"Eu meio que escrevo no meio do dia, pra não ficar no meio de um beco sem saída. Nem em cima do muro que divide o mundo. Meio que escrevo quando não tenho outro meio de mudar o meu meio. Meio que escrevo pra não ser só um meio de mim!" Em forma de versos e prosas, pequenos fragmentos de existência por Déborah Amaral
domingo, 29 de septiembre de 2019
Se quando eu estiver longe
Muito longe daqui
Você se lembrar de mim
Quando ver uma poesia
Perdida no meio das contas a pagar
Ou prestar atenção num muro pintado
De cores alegres
De dentro de seu carro
A caminho do trabalho
Ou se tirar uma fotografia de um menino
Que sorri
No caos de uma catástrofe
Chamada dia a dia
Ou se ganhar um pedaço de bolo
De fubá com a ponta queimada
E desejar que eu tivesse ali
Pra fazer o café
Se você se lembrar
Quando conhecer um novo pensador
Ou se lembrar quando sentir dor
De barriga ou de consciência
Ou quando alguem chegar
Meio atrapalhada
Se você se lembrar de mim
E rir
De muito, muito longe
Bem nessa hora
Uma brisa vai passar por mim
E vou sentir um bem-estar
De bem querer
Desses que a gente sente
Sem saber por que
E terá valido a pena
Construir nossa amizade
Muito longe daqui
Você se lembrar de mim
Quando ver uma poesia
Perdida no meio das contas a pagar
Ou prestar atenção num muro pintado
De cores alegres
De dentro de seu carro
A caminho do trabalho
Ou se tirar uma fotografia de um menino
Que sorri
No caos de uma catástrofe
Chamada dia a dia
Ou se ganhar um pedaço de bolo
De fubá com a ponta queimada
E desejar que eu tivesse ali
Pra fazer o café
Se você se lembrar
Quando conhecer um novo pensador
Ou se lembrar quando sentir dor
De barriga ou de consciência
Ou quando alguem chegar
Meio atrapalhada
Se você se lembrar de mim
E rir
De muito, muito longe
Bem nessa hora
Uma brisa vai passar por mim
E vou sentir um bem-estar
De bem querer
Desses que a gente sente
Sem saber por que
E terá valido a pena
Construir nossa amizade
BH, junho18
Você ja se sentiu velho
Mesmo ainda sendo jovem?
Já sonhou em ser revolucionário
Prestes a cochilar
Com um livro sobre Che nas mãos?
Já sentiu o tempo
Escapar pelas mãos
E adormeceu sem saber
Se existe solução?
Já acordou de sobressalto
De tanto pensar
Que a eleição era um assalto?
Você ja quis lutar
Mas de tanto relutar
Acabou deixando pra lá?
Você ja deixou um livro na geladeira
Por medo de que alguém o enviasse pra fogueira?
Você ja se perguntou qual é a causa desse mundo sem causas?
Ou sem querer trocadilhos
Acabou pensando qual seu papel controvertido
Nos tempos de papéis invertidos?
Já pensou em tudo isso
Sentado no vaso de seu banheiro
Antes de entrar pro chuveiro?
BH, agosto/18
"Estou sempre de costas
Para o que eu faço"
Miguel Gontijo
Para o que eu faço"
Miguel Gontijo
Há palavras
Que ficam rondando
Na minha cabeça
Rodopiam, fazem danças
Em vez de sinapses
Pulam as catracas de meus neurônios
Criam forma, aprontam algazarra
Eu tranco a porta ligei
Rodo a chave apressada
Preciso ir pra rua
Viver histórias
que não sejam inventadas
Não quero mais uma noite
De página em branco
A poesia grita que eu espere!
Me faço de surda
Cantarolo feito criança
Quando faz birra
Mas o táxi demora
E eu não tenho remédio
Já fiz este poema
Ainda do lado de dentro
Do portão
Olhei pra trás
E a poesia
Me acenava pela janela
Com ares de deboche pela sua vitória
Mostrei-lhe o dedo
Como fazem velhas amigas
Saí rindo
Ela entrou pra dentro
Que ficam rondando
Na minha cabeça
Rodopiam, fazem danças
Em vez de sinapses
Pulam as catracas de meus neurônios
Criam forma, aprontam algazarra
Eu tranco a porta ligei
Rodo a chave apressada
Preciso ir pra rua
Viver histórias
que não sejam inventadas
Não quero mais uma noite
De página em branco
A poesia grita que eu espere!
Me faço de surda
Cantarolo feito criança
Quando faz birra
Mas o táxi demora
E eu não tenho remédio
Já fiz este poema
Ainda do lado de dentro
Do portão
Olhei pra trás
E a poesia
Me acenava pela janela
Com ares de deboche pela sua vitória
Mostrei-lhe o dedo
Como fazem velhas amigas
Saí rindo
Ela entrou pra dentro
BH, agosto/18
Trintei
A pressa passou
O tempo acalmou
Assim, de repente
O milagre dos ciclos
Um acabou
Outro começou
A mulher de vinte e tantos
Cedeu passagem a de trinta e nada
Só 30!
Por um ano
Com todo o tempo do mundo
Pra inventar o que fazer
Com uma década
Com uma vida
Suspiram os relógios
Seus infidáveis tic tacs
Mas ela nem escuta
Porque agora
Está muito concentrada
Em ouvir seu coração
O tempo acalmou
Assim, de repente
O milagre dos ciclos
Um acabou
Outro começou
A mulher de vinte e tantos
Cedeu passagem a de trinta e nada
Só 30!
Por um ano
Com todo o tempo do mundo
Pra inventar o que fazer
Com uma década
Com uma vida
Suspiram os relógios
Seus infidáveis tic tacs
Mas ela nem escuta
Porque agora
Está muito concentrada
Em ouvir seu coração
Primeiro de setembro é a aurora
Da primavera
Revirei a estante
Abri Pessoa, Meireles e Sanchez
Mas somente por hoje
Não me disseram nada
Pois farei eu mesma
Meu próprio poema
Com caneta, papel e sangue
Farei com minhas próprias mãos
Como minha mãe
Que cria seu próprio alimento
Alimentando porcos
E metendo a enxada na terra
Pra cavar sua força
E semear esperanças
Hoje também sou camponesa
Senão de trabalho, do que resta de meus avós
Correndo em minhas veias
Estou me plantando neste poema
Crescerei
Em meio a anseios, raivas
Chuvas com raios
Desejos
De ventos e beijos
Sol que queima
E sombras que abrigam
Mas também escondem
Há ervas daninhas
Mas que se danem!
Que de toda merda
Se faça esterco
Tenho raízes
Folhagens e de vez em quando
Até floresço
É quase primavera, afinal!
Tenho também um coração
De brisa e aço
No peito de um mineiro
Cabe a dureza
Do minério
E o encanto de todos os mistérios!
E agora, pronto
Que já tenho meu poema
De sábado
Vou dá-lo em oferenda
Aos Deus do tempo
Que habita todos os dias da semana
Sem estar em altar de nenhum templo
Só por isso
Nao irei à missa de domingo
BH, set/18
Criado por vó
A vó cuida do neto
O neto cuida da mãe
A mãe cuida da vó
A vó cuida da filha
A filha cuida do filho
O filho da filha cuida da vó
Todos se cuidam
Menos o pai
Que não entrou na história
Que saiu de casa
Que não quis ser família
Que deixou em branco
Um simples documento:
Certidão de Nascimento
Criando um vazio
De sentimento
Que a vó encheu de biscoito
Caseiro
E a mãe encheu de amor em pedaços
E bolo de brigadeiro no dia do aniversário
Por ser mulher guerreira
Menino criado por vó e mãe
Cresce sabendo que pra cada falta
Terá duas presenças
É que menino criado por vó
Seja em roça ou em apartamento
Nunca que se ajusta à falta de amor
Sempre se ajeita
Entre dois colos
Um pro cafuné
Outro pra cosquinha no pé
Menino criado por vó e mãe:
Três cuidando de três
É mesmo um desajuste!
#elenao #elenunca
O neto cuida da mãe
A mãe cuida da vó
A vó cuida da filha
A filha cuida do filho
O filho da filha cuida da vó
Todos se cuidam
Menos o pai
Que não entrou na história
Que saiu de casa
Que não quis ser família
Que deixou em branco
Um simples documento:
Certidão de Nascimento
Criando um vazio
De sentimento
Que a vó encheu de biscoito
Caseiro
E a mãe encheu de amor em pedaços
E bolo de brigadeiro no dia do aniversário
Por ser mulher guerreira
Menino criado por vó e mãe
Cresce sabendo que pra cada falta
Terá duas presenças
É que menino criado por vó
Seja em roça ou em apartamento
Nunca que se ajusta à falta de amor
Sempre se ajeita
Entre dois colos
Um pro cafuné
Outro pra cosquinha no pé
Menino criado por vó e mãe:
Três cuidando de três
É mesmo um desajuste!
#elenao #elenunca
Ypê
Além do quê
O ypê é generoso
Agora, que a primavera
Se anuncia
Que as outras flores
Estão se preparando
Pra se fazerem enfeites
Quase igual menina de quinze
Em vespera de festa
O ypê pouco a pouco
Vai se desmanchando
Flor por flor
Vai dando espaço
Caindo sem precisar
De vento que a derrube
Cobrindo o chao cinza
Da cidade
O ypê é generoso
Agora, que a primavera
Se anuncia
Que as outras flores
Estão se preparando
Pra se fazerem enfeites
Quase igual menina de quinze
Em vespera de festa
O ypê pouco a pouco
Vai se desmanchando
Flor por flor
Vai dando espaço
Caindo sem precisar
De vento que a derrube
Cobrindo o chao cinza
Da cidade
O ypê vai
Nos dando um adeus
Com beleza e brevidade
Vai se fazendo tapete
Pra outras flores chegarem
O ype não disputa paisagem
Cada flor à seu tempo
Que venham as novidades!
Nos dando um adeus
Com beleza e brevidade
Vai se fazendo tapete
Pra outras flores chegarem
O ype não disputa paisagem
Cada flor à seu tempo
Que venham as novidades!
Reforma do telhado
Do céu descoberto
Desceu uma luz
E do teto aberto
Eu vi o céu pela primeira vez
Da rampa descida todo dia
Olhei pra cima
À procura de Deus
E vi um trabalhador
Que me acenou
Fingi que era uma bênção
E foi quase a mesma coisa
Se alguma Casa não tem teto
De vidro
Que ainda assim guarde suas pedras
Que hoje no nosso telhado
Está um operário
Em desconstrução
Que me sorri
Viajar sozinha
Sobre viajar sozinha
Muita gente pensa que viajar sozinha é sobre aprender a se virar sozinha. Não é. Pelo menos, não para mim: uma atrapalhada confessa! Quem me conhece sabe que tenho dois grandes dons na vida, que se manifestam especialmente nas viagens: arrumar confusão e achar quem me ajude a resolver. Não são grandes confusões as em que eu me meto, são pequenos apertos, daqueles que eu penso: "e agora, Deborah? Como vamos fazer?" E sempre encontro quem me socorra! São vários os episódios que deram frio na espinhela e agora são motivos de risadas. Viajar sozinha é abrir-se à solidariedade universal, que independente de laços de afeto pré-existentes. É aprender a pedir ajudar a desconhecidos, a confiar em quem nunca viu e talvez nunca volte a ver. E claro, contar com o apoio certo da família e dos amigos, que à distância nos salvam! Com esses sabemos que podemos contar sempre, o que nos dá tranquilidade de alma pra podermos ir muito além do que seus olhos vão nos alcançar. Viajar sozinha não é tanto sobre saber estar sozinha, é sobre saber que a fraternidade (e sororidade!) humana não se restringe ao pequeno círculo de pessoas especiais que vamos escolhendo ao longo da vida pra caminhar ao nosso lado. A bondade é humana está no mundo todo, em todo canto e é delicioso encontrá-la, seja fazendo novos amigos, seja contando com o apoio breve de passageiros! Como canta o Mestre Gonzaguinha: "é tão bonito quando a gente sente que nunca está sozinho por mais que pense estar". Então, este texto é uma pequena sementinha de coragem pra quem tem vontade de ir sozinha: vai, e depois me conta! Já quero ouvir suas histórias!
Texto escrito na véspera da viagem para Cuba
BH, set/18
Coisas das ruas de BH
Hoje na volta do trabalho pra casa, encontrei uma senhora, saindo do Hospital Mário Pena, que havia acabado de receber um diagnóstico de câncer de mama. Ela cantava uma música religiosa, e puxou assunto pra me contar sobre a notícia que acabara de receber. Ela me falou com muita fé sobre o poder de Deus em promover a sua cura, eu confirmei que sim, que Deus a curaria! Falei coisas do tipo "Deus cura por meio da medicina", perguntei do tratamento, etc.. ela firme, falou que mesmo que a medicina falhasse, Deus poderia curar, que fosse feita a Sua vontade. Depois, como de costume em BH, reclamou do transito, do quanto demoraria pra chegar em casa. Estava angustiada, precisava conversar. Procurou em mim, uma desconhecida, alguém pra desabafar, mas na verdade ela não falava pra mim, falava pra si, ainda tentando digerir a noticia. Fomos conversando até o ponto em que nossos caminhos desencontraram-se, eu lhe recomendei ir com Deus e prometi incluir a sua cura entre minhas preces e orações. Segui meu caminho, pensando mais uma vez em como a vida é frágil.. Continuei caminhando, meio nostálgica, pensando se podia ter feito mais alguma coisa, dado uma palavra a mais de conforto, enfim, sentindo o peso da impotência diante de certos acontecimentos.. Segui assim até encontrar uma menininha de no máximo dois anos, que perguntava a mãe se podia correr. Recebida a autorização, ela começou a correr com suas perninhas tão pequenas. Olhei pra ela, e falei "vou te pegar". Foi o bastante pra ela sair correndo ainda mais feliz, parou um pouquinho e falou pra mãe: "Mãe to brincando com ela". E a mãe disse: "Legal, vc fez uma amiguinha". Minha amizade com a pequenina durou meio quarteirão, até eu entrar na padaria para pegar o pãozinho nosso de cada dia. Ai já estava pensando em como a alegria pode ser fácil.. E foi assim, que na minha curta caminhada, do trabalho pra casa, encontrei duas amizades, dessas que duram o tempo de um instante, mas deixam marcas pra uma vida toda.
Belo Horizonte, 29 de setembro de 2014.
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