domingo, 29 de septiembre de 2019

Trintei

A pressa passou
O tempo acalmou
Assim, de repente
O milagre dos ciclos
Um acabou
Outro começou
A mulher de vinte e tantos
Cedeu passagem a de trinta e nada
Só 30!
Por um ano
Com todo o tempo do mundo
Pra inventar o que fazer
Com uma década
Com uma vida
Suspiram os relógios
Seus infidáveis tic tacs
Mas ela nem escuta
Porque agora
Está muito concentrada
Em ouvir seu coração

Primeiro de setembro é a aurora
Da primavera
Revirei a estante
Abri Pessoa, Meireles e Sanchez
Mas somente por hoje
Não me disseram nada
Pois farei eu mesma
Meu próprio poema
Com caneta, papel e sangue
Farei com minhas próprias mãos
Como minha mãe
Que cria seu próprio alimento
Alimentando porcos
E metendo a enxada na terra
Pra cavar sua força
E semear esperanças
Hoje também sou camponesa
Senão de trabalho, do que resta de meus avós
Correndo em minhas veias
Estou me plantando neste poema
Crescerei
Em meio a anseios, raivas
Chuvas com raios
Desejos
De ventos e beijos
Sol que queima
E sombras que abrigam
Mas também escondem
Há ervas daninhas
Mas que se danem!
Que de toda merda
Se faça esterco
Tenho raízes
Folhagens e de vez em quando
Até floresço
É quase primavera, afinal!
Tenho também um coração
De brisa e aço
No peito de um mineiro
Cabe a dureza
Do minério
E o encanto de todos os mistérios!
E agora, pronto
Que já tenho meu poema
De sábado
Vou dá-lo em oferenda
Aos Deus do tempo
Que habita todos os dias da semana
Sem estar em altar de nenhum templo
Só por isso
Nao irei à missa de domingo

BH, set/18

Criado por vó

A vó cuida do neto
O neto cuida da mãe
A mãe cuida da vó
A vó cuida da filha
A filha cuida do filho
O filho da filha cuida da vó
Todos se cuidam
Menos o pai
Que não entrou na história
Que saiu de casa
Que não quis ser família
Que deixou em branco
Um simples documento:
Certidão de Nascimento
Criando um vazio
De sentimento
Que a vó encheu de biscoito
Caseiro
E a mãe encheu de amor em pedaços
E bolo de brigadeiro no dia do aniversário
Por ser mulher guerreira
Menino criado por vó e mãe
Cresce sabendo que pra cada falta
Terá duas presenças
É que menino criado por vó
Seja em roça ou em apartamento
Nunca que se ajusta à falta de amor
Sempre se ajeita
Entre dois colos
Um pro cafuné
Outro pra cosquinha no pé
Menino criado por vó e mãe:
Três cuidando de três
É mesmo um desajuste!
#elenao #elenunca

BH, set/18. Poema em protesto contra Bolsonaro

Ypê

Além do quê
O ypê é generoso
Agora, que a primavera
Se anuncia
Que as outras flores
Estão se preparando
Pra se fazerem enfeites
Quase igual menina de quinze
Em vespera de festa
O ypê pouco a pouco
Vai se desmanchando
Flor por flor
Vai dando espaço
Caindo sem precisar
De vento que a derrube
Cobrindo o chao cinza
                                                                                    Da cidade
                                                                                    
O ypê vai
Nos dando um adeus
Com beleza e brevidade
Vai se fazendo tapete
Pra outras flores chegarem
O ype não disputa paisagem
Cada flor à seu tempo
Que venham as novidades!

Belo Horizonte, set/19

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Reforma do telhado


Do céu descoberto
Desceu uma luz
E do teto aberto
Eu vi o céu pela primeira vez
Da rampa descida todo dia
Olhei pra cima
À procura de Deus
E vi um trabalhador
Que me acenou
Fingi que era uma bênção
E foi quase a mesma coisa
Se alguma Casa não tem teto
De vidro
Que ainda assim guarde suas pedras
Que hoje no nosso telhado
Está um operário
Em desconstrução
Que me sorri

Viajar sozinha


Sobre viajar sozinha

Muita gente pensa que viajar sozinha é sobre aprender a se virar sozinha. Não é. Pelo menos, não para mim: uma atrapalhada confessa! Quem me conhece sabe que tenho dois grandes dons na vida, que se manifestam especialmente nas viagens: arrumar confusão e achar quem me ajude a resolver. Não são grandes confusões as em que eu me meto, são pequenos apertos, daqueles que eu penso: "e agora, Deborah? Como vamos fazer?" E sempre encontro quem me socorra! São vários os episódios que deram frio na espinhela e agora são motivos de risadas. Viajar sozinha é abrir-se à solidariedade universal, que independente de laços de afeto pré-existentes. É aprender a pedir ajudar a desconhecidos, a confiar em quem nunca viu e talvez nunca volte a ver. E claro, contar com o apoio certo da família e dos amigos, que à distância nos salvam! Com esses sabemos que podemos contar sempre, o que nos dá tranquilidade de alma pra podermos ir muito além do que seus olhos vão nos alcançar. Viajar sozinha não é tanto sobre saber estar sozinha, é sobre saber que a fraternidade (e sororidade!) humana não se restringe ao pequeno círculo de pessoas especiais que vamos escolhendo ao longo da vida pra caminhar ao nosso lado. A bondade é humana está no mundo todo, em todo canto e é delicioso encontrá-la, seja fazendo novos amigos, seja contando com o apoio breve de passageiros! Como canta o Mestre Gonzaguinha: "é tão bonito quando a gente sente que nunca está sozinho por mais que pense estar". Então, este texto é uma pequena sementinha de coragem pra quem tem vontade de ir sozinha: vai, e depois me conta! Já quero ouvir suas histórias!

Texto escrito na véspera da viagem para Cuba
BH, set/18

Coisas das ruas de BH


Hoje na volta do trabalho pra casa, encontrei uma senhora, saindo do Hospital Mário Pena, que havia acabado de receber um diagnóstico de câncer de mama. Ela cantava uma música religiosa, e puxou assunto pra me contar sobre a notícia que acabara de receber. Ela me falou com muita fé sobre o poder de Deus em promover a sua cura, eu confirmei que sim, que Deus a curaria! Falei coisas do tipo "Deus cura por meio da medicina", perguntei do tratamento, etc.. ela firme, falou que mesmo que a medicina falhasse, Deus poderia curar, que fosse feita a Sua vontade. Depois, como de costume em BH, reclamou do transito, do quanto demoraria pra chegar em casa. Estava angustiada, precisava conversar. Procurou em mim, uma desconhecida, alguém pra desabafar, mas na verdade ela não falava pra mim, falava pra si, ainda tentando digerir a noticia. Fomos conversando até o ponto em que nossos caminhos desencontraram-se, eu lhe recomendei ir com Deus e prometi incluir a sua cura entre minhas preces e orações. Segui meu caminho, pensando mais uma vez em como a vida é frágil.. Continuei caminhando, meio nostálgica, pensando se podia ter feito mais alguma coisa, dado uma palavra a mais de conforto, enfim, sentindo o peso da impotência diante de certos acontecimentos.. Segui assim até encontrar uma menininha de no máximo dois anos, que perguntava a mãe se podia correr. Recebida a autorização, ela começou a correr com suas perninhas tão pequenas. Olhei pra ela, e falei "vou te pegar". Foi o bastante pra ela sair correndo ainda mais feliz, parou um pouquinho e falou pra mãe: "Mãe to brincando com ela". E a mãe disse: "Legal, vc fez uma amiguinha". Minha amizade com a pequenina durou meio quarteirão, até eu entrar na padaria para pegar o pãozinho nosso de cada dia. Ai já estava pensando em como a alegria pode ser fácil.. E foi assim, que na minha curta caminhada, do trabalho pra casa, encontrei duas amizades, dessas que duram o tempo de um instante, mas deixam marcas pra uma vida toda.

Belo Horizonte, 29 de setembro de 2014.

Eu estou interessada na poética da vida. Que é muito mais que a poesia dos livros. Embora, justica feita, seja essa, a que nos desperta,...