Quando o racismo mata, o capitalismo é o assassino.
Na última sexta-feiram, vi o filme Se a Rua Beale Falasse. Um drama forte e sensível sobre o racismo norte-americano. Conta a saga de uma família negra para tentar provar a inocência de um jovem negro acusado de estupro. Não quero dar spoiler, mas acho que todo mundo consegue saber que o filme não tem um final feliz. Não poderia ter. Tem um final de uma felicidade negociada, entre quem pode negociar, o Ministério Público, e quem só tem a perder, o acusado. A justiça nos moldes mercadológicos..
No dia seguinte, ao abrir as redes sociais, defronto-me com o caso do assassinato do Pedro Gonzaga, um jovem negro morto por um segurança do supermercado Extra. O filme vem à lembrança na hora, pois tem uma cena em que o protagonista sofre violência policial em um supermercado.
Em mais um drama da vida real, mais uma vida negra perdida para as mercadorias. Quantas vidas negras já foram perdidas por mercadorias? Quantas outra serão? Das mais variadas formas, negros continuam a morrer nas senzalas abertas do Brasil. Negros continuam a morrer nas celas cerradas de todo o mundo.
O capitalismo é o assassino. O segurança que estrangulou é só a mão visível da "mão invisível". O racismo mata. O racismo é um produto direto do capitalismo. A escravidão em seus diversos níveis foi e continua sendo uma consequência direta do capitalismo e do imperialismo. Logo, quando o racismo mata, é o capitalismo que mata! É a sociedade que valoriza mais as coisas do que as pessoas, em especial, mais do que a pessoas negras, que mata!
É preciso ver além da mão que enforca, pedir mais do que cadeia. Se não mudar a porra toda, não vai mudar porra nenhuma. Um negro a mais no cemitério, um negro a mais na cadeia (o segurança que cometeu o ato também é negro, conforme se vê nas fotos de reportagem do Jornal Extra. ). Embora não menospreze a necessidade de responsabilidade individual do segurança, meu ponto é que não devemos lutar por mais prisões e mais cadeias. Devemos lutar por mais liberdade!
Hoje aconteceram atos em várias cidades como protesto pela morte do Pedro. Em Belo Horizonte, o ato aconteceu no Supermercado Extra da Avenida Francisco Sales. Não havia muitas pessoas, mas as que se dispuseram sair à rua numa tarde de domingo chuvoso deram seu recado. Mais umas às outras do que a qualquer outra pessoa. O mais importante ali foi a confirmação de laços de solidariedade e encorajamento aos que estão e sempre estiveram na luta. A mão do Pedro foi soltada! Se é que algum dia alguma mão, além da de sua mãe, que presenciou o filho ser morto, tenha segurado a mão do Pedro. Há tantas mãos soltas. Quem é que realmente não vai soltar? Quem sempre segurou a barra.
Enquanto o ato acontecia, um senhor negro, morador de rua, estava ali com jeito de alienado. De quem não sabe o que está acontecendo. Provavelmente, o que mais sabe do que realmente se trata.
Eu, meio tola e perdida, pergunto timidamente para uma senhora negra, d. Zora Santos, se ela sempre participou dos movimento sociais. Responde com ar exausto: "a vida toda". Não é exatamente uma opção para pessoas como ela. É uma questão de sobrevivência. Pergunto se ela quer relatar alguma coisa em especial. D.Zora me olha com pupilas dilatadas, talvez num misto de indignação e cansaço, talvez porque em um segundo tenha se lembrado de tantos episódios, que preferia não lembrar porque preferia não ter vivido. E lembrar é viver de novo. Talvez porque olhe para mim com minha cara branca de quem não sabe nada daquilo e responde que ia me dizer o que já havia dito em sua fala para os companheiros: "Eu estou sem ar. Eu estou sufocando. Quero respirar."
Recolho-me ao meu lugar de branquitude, de quem mesmo que tente entender, não sabe nada sobre racismo. Porque literalmente nunca o viveu na pele. De quem não sabe nada sobre o que é precisar respirar. Porque respirar para um branco é um ato comum, que não se pensa sobre ele. Como não se pensa sobre suas pele. Como não se pensa sobre o risco que é ir a um supermercado. Respirar é um ato natural brutalmente retirado de tantos negros assassinados. De Marielles a Pedros, o Brasil segue matando seus pretos.
Nós brancos que não sabemos de nada, se quisermos aprender, vamos precisar prestar muita atenção. Em quem está matando. Em quem está morrendo. E em quem está fingindo que não é parte do problema.
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