Terra para quem precisa de terra. Terra para quem quer plantar. Terra para quem quer fazer um jardim em casa e criar frangos para o almoço de domingo. Terra para quem é da terra. Não para quem é dos bancos, não para quem a quer para especular. Não para quem não sabe o que é plantar um grão de milho e esperar ansiosamente o milagre da multiplicação acontecer em seu quintal.
Ocupar a terra por e para quem é da terra. É isso que o MST está fazendo num terreno ocupado em Itatiaiuçu, um pequeno município da região metropolitana de Belo Horizonte.
Ocupar a terra por e para quem é da terra. É isso que o MST está fazendo num terreno ocupado em Itatiaiuçu, um pequeno município da região metropolitana de Belo Horizonte.
A terra de propriedade do empresário Eike Batista, que dispensa apresentações, foi ocupada num dia 08 de março, para marcar a luta das mulheres pela terra. O acampamento leva o nome de uma mulher: D. Conceição, quem lutou na preparação para a ocupação, mas faleceu um mês antes de ela acontecer.
D. Conceição está cheia de mulheres fortes, cheias de garra e coragem. Mulheres que estão reinventando ali o jeito de exister neste planeta. Cada uma delas é uma benção e uma história à parte. Mas eu só poderia começar contando da história de d. Maria da Penha. Com um nome desses... Como a sua xará mais famosa, D. Penha é uma mulher de resistência. Nela a esperança e a alegria teimam em resistir.
E ela tem aquele jeito de vó a que eu não resisto.
E ela tem aquele jeito de vó a que eu não resisto.
Começa nos mostrando cada uma de suas plantas. Esbanjando a sabedoria de quem conhece os segredos das plantas, vai nos dizendo o uso medicinal de cada uma das coisinhas bonitas de seu jardim. Camomila para febre, outra para cicatriz, a outra para quem sofre de estômago, gastrite nervosa e essas coisas. Quase já peço um chá.
Depois nos mostra como os pintinhos cresceram, que está dando ração para o crescimento, mas pouca porque comprar ração fica muito caro. Depois nos convida para entrar para dentro. Ah, como eu gosto de entrar para dentro de uma casa onde habita o amor. Onde cada elemento é cheio de sentimento. Ali sentada no fogão de lenha preparo os ouvidos porque já sinto que lá vêm histórias.
E como vieram. Histórias de amor. De dificuldades das relações humanas. De encantamento com a terra. De tristezas que não passam com o tempo. De sonhos que não desistem.
Nesses momentos eu entendo o sentido da expressão "sou toda ouvidos". Não sou mais nada do que isso. Quero absorver cada pedacinho de onda sonora que traz o retalho de uma vida toda. D. Penha não abre só a casa, abre a vida, o coração, o existir.
Conta-nos que mora junto com seu companheiro há 37 anos. Já logo queremos fazer uma festa de casamento, mas ela diz que não, que se casar, "vai que estraga". Que acontece com muita gente de casar e não dá certo. Só quer uma festa de bodas: de diamantes! Alego que falta muito e deixamos combinada a festa dos quarenta anos.
Ela tem 64 anos e reclama do rosto enrugado. Feito de marcas. E eu imagino que cada linha de expressão é um caminho completo, feito do que foi expresso e do que foi calado. D. Penha me diz que ainda tem sonhos, que não se sente velha para sonhar, que se Deus quiser, ainda vai realizá-los. Pergunto que sonhos são esses: ter um pedaço de terra, para plantar, criar um porquinho, viver tranquila. Um pedaço de terra que seja dela no papel. O papel que faz falta. Que garanta que é dela e que possa ser mostrado para comprovar o dito. Ela que trabalhou a vida toda, em tantas coisas e ainda não conseguiu a segurança que traz o papel. Teme que o novo governo corte o Bolsa família, quer viver do que a terra dá.
Estou curiosa para saber a história de cada pessoa desse pedaço de terra, tão ressignificado. Ela me explica que foi para lá por indicação da filha, que disse que ela, que gostava tanto de plantar, devia ir. Que a terra era boa. Ela e o marido foram para conhecer. O marido só voltou à antiga casa para pegar as coisas e nunca mais saíram. Nascida e crescida na roça, redescobriu o prazer da terra. De ver a terra corresponder ao trabalho diário, o suor derramado. A filha não veio junto, pois tem um filho especial, que não anda nem fala, só vive quietinho e não poderia morar ali. Vieram duas netas.
Num dado momento, conta-me da neta criada por ela, que há pouco tempo fugiu de casa aos 15 anos. Sem se despedir e agora está grávida. Argumento que um dia a neta volta, que é coisa de adolescente, sem juízo, provavelmente iludida com alguma paixão. Mas ela não quer saber dessa volta. O coração de vó amargurou-se. A neta deixou para trás o celular comprado com tanto esforço. A tela do celular estava quebrada de um tombo no asfalto, mas ela mandou consertar e pagou com custo a nova tela, que custou R$150,00, em duas parcelas. Telas trincadas são substituíveis, mas o que fazer com um coração de vó quebrado?
Ela busca a foto da neta num porta retrato. No outro porta retrato, uma foto antiga, do filho, que morreu matado. No carinho da vó e da mãe com as fotos, entendo o enorme poder da fotografia de congelar o amor para de vez em quando deixar ele acontecer de novo dentro da gente. Mesmo quando dói.
Mas isso ainda não é tudo. Fico sabendo que d. Penha é uma celebridade. Que sou apenas mais uma a querer saber dela e contar sua história. Ela já foi filmada em um documentário. E me diz que nem acreditou quando viu que a filmaram indo em direção à casa, arrastando a perna. Mas sabe que sua vida daria também um livro. De tanta coisa que já passou sem se deixar passar.
E o mais de tudo? Aquele momento de dar inveja? D. Penha já recebeu a Dilma! Serviu-lhe bolo e gostou muito dela, que é uma pessoa simples. Que ela bem que podia voltar. Se alguém ai encontrar com Dilma, repasse o convite, por favor.
D. Penha reclama com a anfitriã que está me acompanhando, que ela não avisou que eu iria. Que podia ter feito bolo para mim também. Fala para eu voltar. Eu saio tendo a certeza que voltarei sim. Com um abraço de despedida, diz que me amou. Eu a amei também. Qualquer dia desses, volto para ganhar meu pedaço de bolo. Dessa vez fiquei só no café doce, como de todas as vós.
Volto porque d. Penha me enche de emoção. De ver a terra entregue a quem dela precisa. A quem a merece. A quem a conquista! Terra para quem planta!
Eu poderia chamar isso de função social da propriedade, em termos constitucionais. Mas propriedade tal como o casamento que d. Penha não quer, é só uma instituição civil. O que existe entre d. Penha e a terra é o mesmo que existe entre ela e seu companheiro: amor. E o amor sempre prescindiu das instituições. É além de qualquer função.
D. Penha ri, chora, abraça. Dona Penha é uma Maria do MST. Isso é tanto que não sou mais capaz de contar.
Déborah Amaral. Belo Horizonte, 28/01/2019