martes, 19 de marzo de 2019

MST no #8M

Um movimento dentro do movimento



Na Revolução Cubana a participação das mulheres sempre foi uma condição primordial para a vitória dos rebeldes e para a consolidação do processo revolucionário. Ao mesmo tempo, transformar a condição de vida da mulher cubana foi não só um dos principais desafios, mas também das prioridades da Revolução.  Vilma Espin e Célia Sanches são as figuras mais conhecidas da relação mulher e revolução em Cuba. A Revolução soube perceber que uma verdadeira transformação da sociedade só pode ser efetivada  com ações voltadas às mulheres, mas sobretudo, por elas realizadas. Fidel em muitos discursos se referia à questão feminina como a Revolução dentro da Revolução. 


Faço essa nota introdutória sobre a Revolução dentro Revolução para iniciar o relato sobre a participação das Mulheres do Movimento dos Sem Terra no Ato do 8 de março de 2019 em Belo Horizonte  porque é exatamente a correlação que vejo entre o MST e o feminismo. Não  se faz reforma agrária sem a luta das mulheres e a causa feminista precisa englobar a luta pela terra. MST e feminismo são um movimento dentro do movimento, reciprocamente.

Por um lado, o feminismo desperta as mulheres para que descubram a sua coragem e capacidade de resistência, necessárias para a vivência do MST. Por outro, o envolvimento com a luta política pela terra fortalece a mulher para lutar contra todos os tipos de opressão e desenvolver suas múltiplas potencialidades.

Por isso foi emocionante acompanhar a participação das mulheres do acampamento D. Conceição no Ato  do último dia 8. Elas foram uma força à parte dentro desse um ato, que foi  histórico. Entre elas, podemos enxergar a sororidade que estamos tentando aprender. Porque para elas luta é mais que uma filosofia, é o seu dia a dia. Seu cotidiano. É o que fazem da vida. E sabem que só podem fazer a luta juntas! Uma delas me disse sobre a ida para o MST algo mais ou menos assim: "a gente vem porque precisa. Chega aqui e se apaixona. E nunca mais pára de lutar." Eu concluí: primeiro a necessidade, depois a ideologia.

Acho que é parecido como às mulheres chegam ao feminismo. Chegamos empurradas pela violência, preconceito e discriminação. Chegamos porque de uma forma ou outra descobrimos que feminismo é uma questão de sobrevivência. Que o machismo a todo tempo é um empecilho a ser superado para o exercício de nossos direitos mais básicos. 


Sobre o Ato, não tenho a menor noção de quantitativo de pessoas, só sei que nunca tinha visto tantas mulheres nas ruas de BH e com uma presença tão marcante (isso porque eu não estava em BH no dia do #elenão, que eu sei que foi lindo também). Havia ali uma força especial. Com Marielle presente. Com os peitos na rua.. Com música. Com irmandade. Um encontro de gerações. As mais jovens se destacavam pela ousadia das formas de protestos e as mais velhas estavam lá para nos ensinar a resiliência de quem renova a disposição de fazer tudo de novo.



Posso dizer que foi meu primeiro 8 de março verdadeiro, exatos 29 anos depois do meu primeiro 8 de março de vida. Naquele 8 de março de 1990, Fidel discursava às mulheres cubanas para dizer a elas: "Em tempos de guerra, resistir é a vitória. Em tempos de paz, resistir é a vitória." Nesses tempos atuais, em que não sabemos se são de guerra ou de paz, só disso sabemos: "Resistiremos!" 

Além do dia da mulher, também era dia de festejar os dois anos da ocupação D. Conceição. Um acampamento feminista de nascência. A ocupação iniciou-se no 8 de março de 2017,  para marcar seu caráter feminista, que vem se consolidando desde então. Da parede da secretaria decorada com uma pintura de Frida Kahlo  às lideranças das mulheres em todos os âmbitos. Assim fizeram de uma terra improdutiva, antes destinada à especulação imobiliária, um solo revolucionário. Um resgate à marra da função social de uma terra retomada de um dos símbolos da oligarquia corrupta brasileira: Eike Batista. Com brutalidade e brotalidade. Brotalidade das flores em cada jardim dos barracos e dos alimentos produzidos de forma agroecológica. Brutalidade da força de quem sabe que não pode se permitir retroceder.

Cabe-nos agora perceber que se o MST já descobriu o poder do feminismo, o feminismo urbano  no Brasil ainda precisa incluir de forma mais enfática em sua pauta  a luta pela reforma agrária.  A emancipação da mulher do campo é fundamental para uma verdadeira transformação da realidade da mulher no Brasil. Não só por serem milhões de brasileiras que dependem do acesso à terra para alcançarem a plenitude de sua dignidade. Também porque patriarcado e oligarquia é uma combinação histórica na formação da violência generalizada contra a mulher brasileira. A superação do machismo no Brasil não acontecerá enquanto as terras deste país estivem concentradas nas mãos de poucos homens: brancos, corruptos e violentos. 

A luta das mulheres do MST precisa ser a luta de todas as mulheres e homens feministas do Brasil. 









Na noite da formatura
Subi escondida
Descalça do meu salto alto
Até o décimo terceiro andar
Para guardar num escaninho
Meus sonhos de ainda quase menina
Pensei que ali no meio de tantos vade mecuns
Ha séculos esquecidos
Estariam seguros, até também restarem-se vetustos
Mas agora (bem agora!)
O Centro Acadêmico Afonso Pena
anuncia no Facebook
Que todos os escaninhos abandonados
Serão arrombados!
Pobres sonhozinhos!
Despertarao de sobressalto
Feito inocentes que têm a casa invadida
No meio do sono da madrugada!
Fujam, sonhozinhos!
Vão pela escada!
Não esperem o elevador
Que ele sempre trava, quando nao cai pra cima!
Vão rápido!!
Pensando bem..Não, não..
Não vão pela escada
Que pode encontrar muita gente atrapalhada
Que sempre sobe correndo por estar atrasada
Pra fazer a prova que nada prova
Vão pela janela, sonhozinhos!
E não tenham medo
Que eu me lembro bem
Que os criei com boas asas!
Voem, não se preocupem por me deixar sozinha
Estou tão libertas de vocês
Quanto vocês, livres de mim.
Vocês encontrarão novos calouros
Ou algum velho colega de sala
Disposto a lutar pelo que é Direito
E eu?
Eu vou à esquerda..
Sem tantos sonhos, nem tantas chaves
Bh, 19 de março de 2018

domingo, 17 de marzo de 2019

Gorda e feliz de biquini!

O que a Sheila tem a nos ensinar?



Conheci a Sheila na última quarta-feira de cinzas. Numa praia da Bahia. Lá estava ela, toda poderosa de biquini amarelo e copo de cerveja na mão.
Estava com amigos e pareceu-me tão à vontade em seu corpo, que tive vontade de ir conversar com ela porque senti que ela tinha algo a nos ensinar. E tivemos um papo super legal, sobre autoestima, gordofobia e liberdade. Sheila é carioca, e as mineiras têm sempre muito a aprender com as cariocas. Sobre leveza e autenticidade. 

Lógico que eu não ia perder a oportunidade de fotografar uma mulher linda e cheia de atitude assim. Propus e ela topou de cara! Teve super paciência com essa aprendiz de fotográfa que lhes escreve e nos divertimos à beça, eu brincando de fotográfa, ela brincando de modelo. 

É brincadeira, mas é sério. Precisamos falar sobre corpos gordos. Esse assunto tem estado nos meus pensamentos desde que soube que uma pessoa muito querida não vai a praia, por se sentir incomodada de ficar de biquini. Depois assisti a uma reportagem com blogueiras gordas, que estão reinventando a visão sobre a gordura, superando traumas e comecei a pensar sobre como nunca tinha parado para refletir sobre o verdadeiro sofrimento a que são submetidas pessoas gordas, em especial, as mulheres. 

Por isso o encontro com Sheila veio a calhar, por ser a oportunidade de trazer isso à tona com beleza. Com a beleza da Sheila. Contei a ela sobre o meu próprio desconforto com minha barriga, sobre como em Minas não me sinto à vontade para frequentar festas em piscinas. Ela me olhou com aquela cara de "deixa de ser boba". Estou tentando, Sheila. Pelo menos quando saio das montanhas já me liberto. Já não custo tanto a tirar a canga como das primeiras vezes na praia. O Rio me ensinou a me libertar. A ir a praia com menos vergonha e mais vontade de curtir o sol e o mar. Quantas outras ainda precisam se libertar? E quanto mais eu preciso a amar meu corpo? Sem hipocrisias, hoje estou tentando perder uns quilos que se acumularam nos últimos tempos, mas já aprendi a tratar com gentileza esses quilos extras.. Tento sempre me lembrar que são resultado de muitos dias de comida boa, vida sossegada e cerveja gelada. Oxalá, eu aprenda  cada vez mais a celebrar no lugar de reclamar.

Eu pensei em fazer um texto sério para falar sobre gordofobia, mas dando um google vi que já tem muito texto sério sobre o assunto. Como essa excelente matéria da Galileu (veja aqui Matéria da Galileu) sobre o assunto. Um dos dados mais interessantes é sobre pesquisas recentes que questionam o dogma da gordura x saúde. Destaco o trecho a seguir, só para terem noção:

Estudo recente encabeçado por psicólogos da Universidade de Los Angeles (Ucla) apontou que usar o IMC para determinar índice de saúde levou à classificação incorreta de 54 milhões de americanos saudáveis como “doentes”. De acordo com a pesquisa, que cruzou dados de IMC com os de exames laboratoriais, quase metade dos norte-americanos considerados acima do peso conforme seus índices de massa corporal são saudáveis, assim como aproximadamente 20 milhões de obesos. Além disso, mais de 30% das pessoas com o IMC considerado normal na verdade não estão saudáveis. Conclusão? Obesidade não é sinônimo de doença, assim como magreza não é sinônimo de saúde. 

Além disso, a matéria mostra como o preconceito com a gordura ultrapassa a relação com o espelho, biquinis e posts nas redes sociais e chega a todos os âmbitos da vida da mulher, em especial, as relações afetivas e o mercado de trabalho.

Tenho pra mim muito claro que se a obesidade pode levar a doenças, é a gordofobia que impede de viver. Viver no melhor do seu significado: de aproveitamento dessa chance única de saborear o mundo nos poucos anos que nos cabem estar em um corpo. Um corpo, que independente de forma, deveria ser festejado, só por ser esse o espaço para a experiência única e individual que é a existência. 

Mas por saber que já tem muita gente séria tratando do assunto e que interessados em conhecer sobre o assunto podem googlar à vontade, eu não vou tratar do tema. 

                                                                                   Vou falar de pessoa. Desta pessoa: Sheila.

Sheila me conta que dos 18 aos 25 anos lutou, com horas diárias na academias, remédios e idas aos consultóros médicos contra a gordura em seu corpo. Até que percebeu que poderia sim, ser feliz num corpo gordo. E passou a valorizar a sua beleza. Pergunto para ela como é em seu ciclo social. Se enfrenta preconceito. Ela me responde que se tivesse continuado ali naquele mundinho de academia, onde ser magro é o objetivo de vida, provavelmente ela estaria sim, tendo problemas. Mas ela resolveu reprogramar a relação com o corpo e com o mundo. 

Acho que podemos chamar isso de amadurecimento. Hoje Sheila tem 38 anos e prepara-se para
festejar os 40 anos daqui a pouco. Do maiô ao biquini comportado, do biquini comportado ao ousado, foi conquistando a liberdade de estar na praia. De estar no mundo. Estar onde quiser. Nas lojas de griffes, exigindo tamanhos GG. Na companhia de quem lhe atrai, esbanjando autoconfiança, sedução e simpatia. De estar na família, ensinando às crianças e aos adolescentes que por vezes se sentem tristes com comentários maldosos sobre gordura, que se impor é preciso. E de estar na Bahia, comendo acarajé acompanhado de cerveja gelada. Curtindo o carnaval, como deve ser!

Sheila se orgulha de não ter vergonha do seu corpo e de desfrutar o mundo,
 sem medo de ser feliz! 
É isso que temos a aprender com Sheila:
 a ir à praia!
 A ir à vida!









Nesse 8 de março
São tantas as mulheres 
Que merecem homenagem
Que não quero 
Falar de nenhuma delas
Não vou falar da minha mãe 
Que com genes e gênio 
Me passou a mania
De querer ser mais forte
Do que me supus
Não vou falar 
Das minhas irmãs 
Que me criaram 
Enquanto minha mãe trabalhava
e crescidas que somos
Seguimos nos apoiando
Em tudo que inventamos
Nao vou falar das minhas tias
Tão cheias de abraços pras minhas voltas
Tampouco vou falar 
Das minhas avós
As ausencias mais presentes em mim
Não vou falar das minhas primas
Que se tornaram melhores amigas 
Também não vou falar das minhas cunhadas
Que são os complementos
Que fazem nossa família ir além 
Do que fomos moldados
Tampouco vou falar das minhas professoras 
Que me ensinaram a encontrar quantos mundos há 
Melhores e mais bonitos, dos que eu habito 
Não..Também da minha terapeuta
Que me mostrou que a culpa 
É uma velha desculpa pra não sermos inteiras
Não vou falar 
Nem mesmo das minhas sobrinhas
Essas pequeninas
Que ja entoam os cantos do amanhã 
Muito menos das minhas amigas 
Que são constantes companhias
Não, não vou falar delas
porque falar delas 
É só um outro jeito de falar de mim
E eu quero falar das mulheres desconhecidas
Das esquecidas
Das escondidas
Das desomenageadas
Das que estão sob escombros
Das que estão sob véus 
E também sob grinaldas
Das que estão em prisões 
De grades ou ilusões 
E das que ja se libertaram
Sem fazer nenhum alarde
Das que não vão a protestos
Porque suas vidas 
Já são atos de resistência 
Mas falando delas 
Também não estou a falar de mim?
Pois sou uma construção 
Com frestas, reboques e rachaduras
De todas que eu amo
E também de todas 
Que eu ainda nem sei
Mas tudo bem 
Falar de mim
Enfim
É também só um outro jeito de falar delas
De todas as mulheres 
Somos feitas
Cada mulher

domingo, 17 de febrero de 2019

Vidas negras importam

Quando o racismo mata, o capitalismo é o assassino.

Na última sexta-feiram, vi o filme Se a Rua Beale Falasse. Um drama forte e sensível sobre o racismo norte-americano. Conta a saga de uma família negra para tentar provar a inocência de um jovem negro acusado de estupro. Não quero dar spoiler, mas acho que todo mundo consegue saber que o filme não tem um final feliz. Não poderia ter. Tem um final de uma felicidade negociada, entre quem pode negociar, o Ministério Público, e quem só tem a perder, o acusado. A justiça nos moldes mercadológicos..

No dia seguinte, ao abrir as redes sociais, defronto-me com o caso do assassinato do Pedro Gonzaga, um jovem negro morto por um segurança do supermercado Extra. O filme vem à lembrança na hora, pois tem uma cena em que o protagonista sofre violência policial em um supermercado. 

Em mais um drama da vida real, mais uma vida negra perdida para as mercadorias. Quantas vidas negras já foram perdidas por mercadorias? Quantas outra serão? Das mais variadas formas, negros continuam a morrer nas senzalas abertas do Brasil. Negros continuam a morrer nas celas cerradas de todo o mundo. 

O capitalismo é o assassino. O segurança que estrangulou é só a mão visível da "mão invisível". O racismo mata. O racismo é um produto direto do capitalismo. A escravidão em seus diversos níveis foi e continua sendo uma consequência direta do capitalismo e do imperialismo. Logo, quando o racismo mata, é o capitalismo que mata! É a sociedade que valoriza mais as coisas do que as pessoas, em especial, mais do que a pessoas negras, que mata! 

 É preciso ver além da mão que enforca, pedir mais do que cadeia. Se não mudar a porra toda, não vai mudar porra nenhuma. Um negro a mais no cemitério, um negro a mais na cadeia (o segurança que cometeu o ato também é negro, conforme se vê nas fotos de  reportagem do Jornal Extra. ). Embora não menospreze a necessidade de responsabilidade individual do segurança, meu ponto é que não devemos lutar por mais prisões e mais cadeias. Devemos lutar por mais liberdade!

Hoje aconteceram atos em várias cidades como protesto pela morte do Pedro. Em Belo Horizonte, o ato aconteceu no Supermercado Extra da Avenida Francisco Sales. Não havia muitas pessoas, mas as que se dispuseram sair à rua numa tarde de domingo chuvoso deram seu recado. Mais umas às outras do que a qualquer outra pessoa.  O mais importante ali foi a confirmação de laços de solidariedade e encorajamento aos que estão e sempre estiveram na luta. A mão do Pedro foi soltada! Se é que algum dia alguma mão, além da de sua mãe, que presenciou o filho ser morto, tenha segurado a mão do Pedro. Há tantas mãos soltas. Quem é que realmente não vai soltar? Quem sempre segurou a barra. 
Enquanto o ato acontecia, um senhor negro, morador de rua, estava ali com jeito de alienado. De quem não sabe o que está acontecendo. Provavelmente, o que mais sabe do que realmente se trata.

Eu, meio tola e perdida, pergunto timidamente para uma senhora negra, d. Zora Santos, se ela sempre participou dos movimento sociais. Responde com ar exausto: "a vida toda". Não é exatamente uma opção para pessoas como ela. É uma questão de sobrevivência. Pergunto se ela quer relatar alguma coisa em especial. D.Zora me olha com pupilas dilatadas, talvez num misto de indignação e cansaço, talvez porque em um segundo tenha se lembrado de tantos episódios, que preferia não lembrar porque preferia não ter vivido. E lembrar é viver de novo. Talvez porque olhe para mim com minha cara branca de quem não sabe nada daquilo e responde que ia me dizer o que já havia dito em sua fala para os companheiros: "Eu estou sem ar. Eu estou sufocando. Quero respirar."

Recolho-me ao meu lugar de branquitude, de quem mesmo que tente entender, não sabe nada sobre racismo. Porque literalmente nunca o viveu na pele. De quem não sabe nada sobre o que é precisar respirar. Porque respirar para um branco é um ato comum, que não se pensa sobre ele. Como não se pensa sobre suas pele. Como não se pensa sobre o risco que é ir a um supermercado. Respirar é um ato natural brutalmente retirado de tantos negros assassinados. De Marielles a Pedros, o Brasil segue matando seus pretos.

Nós brancos que não sabemos de nada, se quisermos aprender, vamos precisar prestar muita atenção. Em quem está matando. Em quem está morrendo. E em quem está fingindo que não é parte do problema.





PS.:

O fato de mais uma morte decorrente do racismo vir à tona nessa semana, também nos leva à discussão sobre o movimentação para criminalização da homofobia, que está na pauta da semana. O episódio escancara a incapacidade do direito penal de evitar que mortes decorrentes de preconceitos históricos continuem a acontecer. O direito penal nos vende a ilusão de salvar vidas, gostamos e aplaudimos porque além de nos parecer justo, nos parece fácil. Mas salvar vidas não é fácil num país de histórico assassino. Homofobia mata. Racismo mata. E o direito penal também mata.

lunes, 4 de febrero de 2019

Humm...livro novo!!


Rasgar o plástico de um livro novo
Com a alegria de uma criança
Que abre o primeiro presente
Na festa de aniversário
Cheirar o livro
Sentindo cheiro de café fresco
E broa de fubá
Acariciar sua capa
Como se fosse o pêlo de um cachorro
Passar as páginas rapidamente
Com um prazer de Amelie Poulai
Balançar com ele o ar próximo ao rosto
Criando brisa
Assinar sua contracapa
Com nome, local e data
(Quase uma Certidão de Nascimento!)
Ter o livro nas mãos
E não o ler..ainda não..
Primeiro senti-lo, so depois lê-lo
É o que explica
O kindle desprezado na gaveta
                                                              Um livro não é só um repositório de textos
                                                              Cada exemplar tem a sua própria história
                                                               E as vezes é tao bonita
                                                              Como aquela que tem impressa


Belo Horizonte, 04 de fevereiro de 2018.

domingo, 3 de febrero de 2019

De grão em grão

De grão em grão 
A galinha não enche o papo
De grão em grão
Ela aumenta sua fome
Aprende a degustar
Vai mais longe buscar grãos
Mais saborosos
Alguns
Prova e cospe 
Outros lhe parecem ruins
Mas engole 
Alguns gosta tanto
Que rumina, rumina
E leva-os para o galo
E diz-lhe toda toda empolgada:
"Fecha os olhos e abre o bico"
Outros, de tão bons!
Ela não tem coragem de comer sozinha
Guarda-os num canto do ninho
Pra dividir com os amigos
Em dia de festa no galinheiro
Tem os que ela prova enganada
E vomita, assim que pode
Há os que ficam entalados na garganta
E os que são tão apetitosos, que nem toca!
Tem uns que não parece 
Mas são bem gostosos
De grão em grão 
A galinha não enche o papo
Ela nunca se sacia
Porque descobriu 
Que mais que o corpo
Gosta de alimentar a alma
E essa nunca se dá por satisfeita
Renova com cada grão
A eterna fome 
De viver
De grão em grão
Não enche o papo
Porque so tem papos furados
Adora inventar 
Que pode voar
Com suas pequenas asas!

Belo Horizonte, 31 de janeiro de 2018.

Eu estou interessada na poética da vida. Que é muito mais que a poesia dos livros. Embora, justica feita, seja essa, a que nos desperta,...