Um movimento dentro do movimento
Na Revolução Cubana a participação das mulheres sempre foi uma condição primordial para a vitória dos rebeldes e para a consolidação do processo revolucionário. Ao mesmo tempo, transformar a condição de vida da mulher cubana foi não só um dos principais desafios, mas também das prioridades da Revolução. Vilma Espin e Célia Sanches são as figuras mais conhecidas da relação mulher e revolução em Cuba. A Revolução soube perceber que uma verdadeira transformação da sociedade só pode ser efetivada com ações voltadas às mulheres, mas sobretudo, por elas realizadas. Fidel em muitos discursos se referia à questão feminina como a Revolução dentro da Revolução.
Faço essa nota introdutória sobre a Revolução dentro Revolução para iniciar o relato sobre a participação das Mulheres do Movimento dos Sem Terra no Ato do 8 de março de 2019 em Belo Horizonte porque é exatamente a correlação que vejo entre o MST e o feminismo. Não se faz reforma agrária sem a luta das mulheres e a causa feminista precisa englobar a luta pela terra. MST e feminismo são um movimento dentro do movimento, reciprocamente.
Por um lado, o feminismo desperta as mulheres para que descubram a sua coragem e capacidade de resistência, necessárias para a vivência do MST. Por outro, o envolvimento com a luta política pela terra fortalece a mulher para lutar contra todos os tipos de opressão e desenvolver suas múltiplas potencialidades.
Por isso foi emocionante acompanhar a participação das mulheres do acampamento D. Conceição no Ato do último dia 8. Elas foram uma força à parte dentro desse um ato, que foi histórico. Entre elas, podemos enxergar a sororidade que estamos tentando aprender. Porque para elas luta é mais que uma filosofia, é o seu dia a dia. Seu cotidiano. É o que fazem da vida. E sabem que só podem fazer a luta juntas! Uma delas me disse sobre a ida para o MST algo mais ou menos assim: "a gente vem porque precisa. Chega aqui e se apaixona. E nunca mais pára de lutar." Eu concluí: primeiro a necessidade, depois a ideologia.
Acho que é parecido como às mulheres chegam ao feminismo. Chegamos empurradas pela violência, preconceito e discriminação. Chegamos porque de uma forma ou outra descobrimos que feminismo é uma questão de sobrevivência. Que o machismo a todo tempo é um empecilho a ser superado para o exercício de nossos direitos mais básicos.
Sobre o Ato, não tenho a menor noção de quantitativo de pessoas, só sei que nunca tinha visto tantas mulheres nas ruas de BH e com uma presença tão marcante (isso porque eu não estava em BH no dia do #elenão, que eu sei que foi lindo também). Havia ali uma força especial. Com Marielle presente. Com os peitos na rua.. Com música. Com irmandade. Um encontro de gerações. As mais jovens se destacavam pela ousadia das formas de protestos e as mais velhas estavam lá para nos ensinar a resiliência de quem renova a disposição de fazer tudo de novo.
Posso dizer que foi meu primeiro 8 de março verdadeiro, exatos 29 anos depois do meu primeiro 8 de março de vida. Naquele 8 de março de 1990, Fidel discursava às mulheres cubanas para dizer a elas: "Em tempos de guerra, resistir é a vitória. Em tempos de paz, resistir é a vitória." Nesses tempos atuais, em que não sabemos se são de guerra ou de paz, só disso sabemos: "Resistiremos!"
Além do dia da mulher, também era dia de festejar os dois anos da ocupação D. Conceição. Um acampamento feminista de nascência. A ocupação iniciou-se no 8 de março de 2017, para marcar seu caráter feminista, que vem se consolidando desde então. Da parede da secretaria decorada com uma pintura de Frida Kahlo às lideranças das mulheres em todos os âmbitos. Assim fizeram de uma terra improdutiva, antes destinada à especulação imobiliária, um solo revolucionário. Um resgate à marra da função social de uma terra retomada de um dos símbolos da oligarquia corrupta brasileira: Eike Batista. Com brutalidade e brotalidade. Brotalidade das flores em cada jardim dos barracos e dos alimentos produzidos de forma agroecológica. Brutalidade da força de quem sabe que não pode se permitir retroceder.
Cabe-nos agora perceber que se o MST já descobriu o poder do feminismo, o feminismo urbano no Brasil ainda precisa incluir de forma mais enfática em sua pauta a luta pela reforma agrária. A emancipação da mulher do campo é fundamental para uma verdadeira transformação da realidade da mulher no Brasil. Não só por serem milhões de brasileiras que dependem do acesso à terra para alcançarem a plenitude de sua dignidade. Também porque patriarcado e oligarquia é uma combinação histórica na formação da violência generalizada contra a mulher brasileira. A superação do machismo no Brasil não acontecerá enquanto as terras deste país estivem concentradas nas mãos de poucos homens: brancos, corruptos e violentos.
A luta das mulheres do MST precisa ser a luta de todas as mulheres e homens feministas do Brasil.
